CADERNO DE RESUMOS

 

Conferência de abertutra

 

LUIZ OTÁVIO SAVASSI

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

 Título: Guimarães Rosa e a Medicina

Nascido em Cordisburgo (MG), em 1908 – mesmo ano da morte de Machado de Assis −, João Guimarães Rosa ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte (hoje Faculdade de Medicina da UFMG) com 17 anos incompletos. Em 1926, quando cursava o 2º ano, pronunciou, diante do ataúde de um estudante de Medicina vitimado pela febre amarela, as palavras “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, que, ouvidas na ocasião por seus colegas de turma Alysson de Abreu e Ismael de Faria, seriam repetidas, 41 anos depois, quando de sua posse na Academia Brasileira de Letras. Graduou-se em 1930 pela 14ª turma da Faculdade e, escolhido orador da turma, chamou a atenção dos doutorandos para a necessidade de uma prática médica que privilegiasse a empatia, o acolhimento e o calor humano, como ilustra, exemplarmente, o trecho que a seguir se reproduz: “De distinto médico patrício contam que, achando-se moribundo, gostava que os companheiros o abanassem. E a um deles, que se oferecera trazer-lhe moderníssimo ventilador elétrico, capaz de renovar-lhe continuamente o ar do aposento, respondeu, admirável no esoterismo profissional e sublime na intuição de curador: ‘Obrigado, o que me alivia e conforta, não é o melhor arejamento do quarto, mas sim a solícita solidariedade dos meus amigos’.” Recém-formado, clinicou, durante aproximadamente um ano e meio, em Itaguara; em abril de 1933, depois de ter participado, como médico voluntário da Força Pública, da Revolução Constitucionalista – deflagrada no dia 9 de julho do ano anterior −, transferiu-se para Barbacena na condição de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Naquela cidade da Mantiqueira, concluiu que deveria abandonar a Medicina e abraçar a carreira diplomática, deixando clara sua intenção na carta que enviou, em 20 de março de 1934, ao amigo Pedro Moreira Barbosa: “Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre après avoir couché avec…”. Paralelamente ao exercício da Diplomacia, dedicou-se, de corpo e alma, à Literatura, convertendo-se, com sua prosa-poética (“prosoema”), marcada, entre outros atributos, pelo jogo dialético (“Tudo é e não é”) e pelo cultivo da dúvida sistemática (“Tudo, pela metade, é verdade”), no mais criativo e sedutor entre os escritores brasileiros. Em sua obra literária, abordou, com maestria, variados temas médicos, como a malária (“sezão”), a lepra (“mal-de-Lázaro”), a miopia (“vista curta”), o tétano, o bócio endêmico (“papo”), o megaesôfago (“mal-de-engasgo”), a varíola (“bexiga-preta”), a carotenemia, a tuberculose (“tísica”), a insuficiência cardíaca, os acidentes ofídicos e as doenças mentais; mas, sobretudo, com invulgar sensibilidade – e pressentindo que “o que a gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde” −, procurou perscrutar os mistérios da alma humana, em busca da verdade última do ser – “o eu por detrás de mim”. Ademais, empenhou-se em relativizar o conceito de “normalidade” – cujos limites se estreitaram sobremaneira à luz das modernas classificações nosológicas psiquiátricas – e, prenhe de empatia, soube devolver a voz aos marginalizados e desvalidos – representados por mendigos, andarilhos, jagunços, deficientes mentais, místicos, ciganos, visionários, cegos, aleijados, prostitutas, leprosos e excêntricos em geral −, redimindo-os com a força avassaladora de sua linguagem sui generis. Como não raro acontece com os tabagistas inveterados – máxime se sedentários e de índole emotiva −, morreu subitamente em 19 de novembro de 1967, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. É verdade que, em dezembro de 1957, em carta endereçada ao escritor baiano Paulo Dantas, admitira ter parado de fumar havia 34 dias, de modo a desafiar, “heroico e pujante”, a “fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais”. Não obstante, em 1966, no exato momento em que recebia das mãos do governado Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, segurava um cigarro com a mão esquerda, de modo a não deixar dúvidas quanto à sua dependência da nicotina, a exemplo de seu alter ego Riobaldo que, a certa altura do Grande Sertão: Veredas, afirma: “De não pitar, me vinham uns rangidos repentes, feito eu tivesse ira de todo o mundo”.

 

Mesas redondas

Sertão: esses vazios – Sagarana

Alexandre Veloso de Abreu

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título: Sagarana e o ciclo universal: as narrativas, o sertão e o mundo de João Guimarães Rosa

Resumo: Esse artigo revê questões que lidam com estruturas narrativas de João Guimarães Rosa, explorando o exercício ficcional do autor mineiro, entendendo que, já no seu primeiro volume de contos, o livro Sagarana (1946), encontra-se a experimentação em prosa que seria a proposta de todo seu projeto literário.  O conto rosiano de um modo geral experimenta e subverte a linguagem em amplos sentidos.  Percebemos essa atenção com as estruturas narrativas no livro que inaugura sua carreira artística. Associando a narrativa com o elemento vital do contar histórias, Rosa nos dá uma esfera atemporal de sua ficção, “seja pela mescla de precisão e imprecisão documental no registro do espaço, seja pela dimensão antropomórfica…” (COELHO, 1991:258) de algumas narrativas do livro que se encontram na fronteira entre o real e o mágico. Verificamos a complexidade temporal e espacial, que dá aos contos um teor lendário e mítico, remontando à alta ancestralidade que se arraiga desde os tempos de Homero.  A “palavra lúdica” descreve muito bem o estilo rosiano como um todo, em especial, o estilo que predomina em Sagarana.  A reprodução do modelo ainda se destaca mais quando os arquétipos junguianos são percebidos para designar padrões seculares de personalidades herdadas e compartilhadas da humanidade.  Ao manter essa constância arquetípica, Rosa insere suas narrativas de tom mítico nesse vasto imaginário coletivo. Arquétipos são parte da linguagem universal da narrativa, e o teor universal da narrativa rosiana se dá justamente por explorar tão bem esses modelos arquetípicos e ambientá-los ao sertão mineiro.  Joseph Campbell, em sua obra O Heroi de mil faces, nos lembra que todas as narrativas, conscientemente ou não, seguem padrões antigos do mito.  Incrustadas nas histórias está a noção de “monomito” que evidencia o papel do herói/heroína em reproduções de ações ad infinitum dentro das estruturas diegéticas.  Esses elementos são revistos com a intenção da busca de um reconhecimento, o que os gregos antigos chamariam de anagnórisis.  Participam de um “inconsciente compartilhado” e se reproduzem no ato de contar histórias, revelando as preocupações comuns da humanidade, lembrando que todo contador de histórias ajusta o padrão mítico a um objetivo próprio ou às necessidades de uma cultura específica.  Lembrando a estrutura proppiana, entende-se que ao explorar a essa fórmula universal, o autor mineiro recusa o estado efêmero do fazer literário, entendendo-o como constante e cíclico, um eterno exercício de reconhecimento. Não há como encerrar algo essencialmente inclinado a se perpetuar.  A obra literária se emancipa de seu tempo, contexto e espaço, seguindo como expressão autônoma que é. Sendo assim, a literatura e o sertão são do mundo.

 

Roniere Menezes

Instituição: Centro Federal Tecnológico de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG)

Título: Justiça e criação popular na concepção comunitária de Sagarana

Resumo: Este ensaio almeja estabelecer reflexões a respeito do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, levando em consideração discussões contemporâneas a respeito do conceito de comunidade. A questão do espaço público e privado, a relação entre direito e justiça aliam-se, no trabalho, a investigações sobre criações sertanejas coletadas e reconfiguradas pela linguagem rosiana. No livro, arquivos relativos à memória popular entram em cena com modulações ímpares, ampliando imagens do Brasil no período em que se iniciam projetos de inserção do país nos parâmetros desenvolvimentistas do capitalismo mundial. Nesse sentido, canções, ditos populares, atividades e crenças do homem comum, inclusive manifestações da cultura negra, contribuem para se repensar o processo moderno de hierarquização dos saberes. Se de um lado as novelas de Sagarana nos sugerem a importância da ascese, do controle dos impulsos, da eliminação de injustiças, maldades e preconceitos para um melhor funcionamento da vida comunitária, por outro lado, os textos apresentam imagens de saberes e modos de vida anacrônicos, não domesticáveis, insubmissos à lógica dominante, em diálogo com invenções artísticas e forças místicas. Comparações entre as cantigas populares e o enredo das novelas ampliam o escopo de nossa discussão, revelando sutilezas da escrita do autor. As cantigas ligam-se à vida cotidiana, à memória coletiva, a experiências partilhadas. São destituídas da ideia de posse e de autoria, constituindo-se como expressões de um bem comum.

 

Sertão é dentro da gente – Corpo de Baile

 José Hélder Pinheiro Aves

Instituição: Universidade Federal de Campina Grande (UFCG-PB)

Título: Miguilim: da dor ao devaneio 

 Resumo: A experiência da dor para o ser humana é reveladora da fragilidade, do limite.  Para a criança esta vivência assume, muitas vezes, uma dimensão trágica, marcada pela incompreensão e que leva ao desespero. Discutiremos o modo como a personagem Miguilim vivencia diferentes experiências de dor e como, ao mesmo tempo, escapa para/pelo o devaneio. Trata-se de um ir e vir que revela a condição humana, capaz de, no momento mais agudo, encontrar um instante de consolo e encantamento. São várias as formas da dor enfrentadas pela personagem: da dor física de apanhar ou de ficar de castigo à grande dor da perda do irmão.

 

 Ivana ferrante rebello

Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES)

Título: Palavras de rumor: notas do tempo do sertão, em Corpo de Baile

Resumo: Este estudo põe em destaque a música das palavras nas novelas de Corpo de Baile, como forma de apresentar ao leitor uma paisagem sonora, “soundscape”, segundo conceito de Shafer. A musicalidade é um dos traços constitutivos da elaboração poética do sertão de Guimarães Rosa, conforme estabelece a crítica especializada, mas não existem estudos que tenham se aprofundado no estudo dos ritmos e cadências que compõem o jogo musical, na escrita desse sertão.  Este trabalho centra sua leitura na escuta dos ritmos e pausas que, lidos como recursos estéticos essenciais à invenção do sertão rosiano, permitem uma oitiva cantante da obra do autor mineiro.

 

Letícia Mallard

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Título: Papaco-o-Paco e outros

Resumo: A encenação do papagaio em textos de Guimarães Rosa, com destaque para a novela Campo Geral, de Corpo de Baile, em suas articulações com os humanos através da imitação da fala, fala essa interpretada pelo imaginário popular como portadora de pertinência linguística e sentimentos, transformando, muitas vezes, a ave falante em personagem usuária de linguagem comunicativa.

 

Sertão é travessia: Grande Sertão: Veredas

 

Claudia Campos Soares

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Título: O mundo à revelia: o trágico moderno de Grande Sertão: Veredas

Resumo: Uma questão colocada de forma recorrente em Grande Sertão:Veredas é a da imprevisibilidade própria da travessia, onde, independentemente, ou a despeito, de qualquer planejamento, irrompe o acaso, capaz de determinar profundamente uma trajetória, retirando do sujeito o domínio de si. Riobaldo, o narrador-protagonista do livro, está sempre manifestando a sua perplexidade diante do caráter absolutamente fortuito e circunstancial dos acontecimentos mais marcantes da sua vida, que o levaram a agir de forma muitas vezes contrária aos seus propósitos e intenções declarados. Esses são alguns aspectos do trágico moderno de Grande Sertão: Veredas que este trabalho pretende discutir.

 

Cleusa Rios P. Passos

Instituição: FFLCH /USP

Título: O erudito e o mal (bem) dito  em “Uma estória de amor” de  Guimarães Rosa

Resumo: O jogo entre o traço erudito, vinculado à cultura, e o mal/bem-dito, vinculado à composição dos narradores e personagens, percorre inúmeras narrativas de Guimarães Rosa, configurando-se de diferentes formas. Já abordei esse aspecto em “Famigerado” (Primeiras estórias), apontando as subversões linguísticas que o sustentam, juntamente com o apoio de noções específicas do saber psicanalítico.  A leitura aqui é semelhante do ponto de vista crítico-teórico, ou seja, intenta-se perseguir tal viés em Corpo de baile, privilegiando “Uma estória de amor” e seus contadores, em um contexto de exceção, o da festa na Samarra. Ao lado de lembranças e esquecimentos que ganham, ou não, relatos e reelaborações, é possível apreender desvios das regras, afetivas, sociais e linguísticas, que sublinham transfigurações  do mal-dito em bem-dito (ou vice-versa), alcançadas graças a estórias que ora se valem de clichês, ora os desarticula, reinventando-os.

 

Mônica Gama

Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

Título: Bananeira que já deu cacho: autoria e autorrepresentação autoral de Guimarães Rosa

Resumo: A assinatura Guimarães Rosa foi inicialmente interpretada como um selo de autenticidade, aspecto caro à recepção guiada pela prosa regionalista. A imagem de um escritor que se munia de cadernetas para registrar informações em suas viagens circulava entre os primeiros leitores das obras de Guimarães Rosa e passou a ser buscada em suas narrativas, sendo ainda hoje retomada pela crítica. Entre os escritos públicos e privados, os romances, contos e crônicas, diários e textos epistolares, a imagem autoral que contribui para a composição de uma assinatura amplamente reconhecível do autor (como a de Grande Sertão: Veredas) desenvolve-se meio a outras autoimagens, pouco comentadas atualmente, mas essenciais para compreender a complexidade do lugar ocupado por Guimarães Rosa em nosso campo literário.  O autor cria uma imagem de si difundida para o público e a reconfigura de acordo com a resposta do público. Porém, a imagem do autor não é só uma fachada social: ela mostra uma identidade para o outro e para si mesmo, articulando um repertório de formas de se relacionar com a autoria.

 

Letra versus imagem em Grande Sertão: Veredas: uma luta lúdica de leituras

 Nesta Mesa redonda a obra Grande Sertão Veredas em quadrinhos será lida como essa “uma travessia de linguagens”, conforme diz Guazzelli.   A mediação da mesa buscará mostrar a tensão “estética” entre a escrita do romance de Guimarães Rosa e as imagens que o releem, presentes no gênero HQ, adaptação de Rodrigo Rosa e Guazzelli. Os motes do diálogo na mesa-redonda serão: ” Em que medida as imagens dão conta de algumas das diversas leituras interpretativas de Grande Sertão: Veredas?” e/ou “Como a obra original e a adaptação ‘compartilham uma mesma gramática’  e como o gênero HQ replica ‘uma forma de análise estrutural’ da obra literária'”? À guisa de exemplificação, podem-se propor  questões como: “O ‘desenho’ do título, na capa dos ‘quadrinhos’ já adianta a leitura que os autores-adaptadores fazem do romance?”; e/ou: ” Que implicação interpretativa há em se ‘desenhar’ o anúncio da morte de Joca Ramiro no meio da versão adaptada, considerando-se a importância do ‘meio’ na obra de Guimarães Rosa?” e/ou: ” Na ‘travessia das linguagens’, houve necessidade de dar outra ordem à narrativa do romance? Por quê?”

 

Comunicações

Adriana Angélica Ferreira

Instituição: Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG – Centro Pedagógico

Título do Trabalho: Carece de ter coragem, carece de ter empatia…

Resumo: Muito comumente a obra de Guimarães Rosa tem sido utilizada como apoio para professores de Geografia, que se valem de suas narrativas para ofertar aos educandos a descrição minuciosa do espaço onde ocorrem suas tramas literárias. Um percurso didático por si só muito interessante. No entanto, essa comunicação tem como objetivo apresentar outro viés para a abordagem dos temas que compõem o currículo geográfico na Educação Básica, a partir de uma prática envolvendo a apreciação de trechos do romance Grande Sertão: Veredas. Valendo-se da análise de Antonio Candido, crítico literário brasileiro, para quem Guimarães Rosa não se configura como um escritor regionalista propriamente dito – mas praticante de uma literatura de cunho essencialmente pitoresco, com acento na linguagem documental, uma vez que através do homem do sertão de Rosa se fazem presentes os problemas universais que incidem sobre os seres humanos – , esse relato de experiência apresentará um processo educativo cuja ênfase consistiu na discussão acerca daquilo que na nossa sociedade exige: coragem frente aos inúmeros desafios que vivenciamos na difícil travessia de sermos  humanos. A partir do trabalho envolvendo temas humanitários junto aos adolescentes do terceiro ciclo de uma escola pública, o Centro Pedagógico, tem sido possível perceber o quanto é essencial a efetivação de práticas que desloquem os alunos de seus lugares, por vezes confortáveis, para realidades que lhes possibilitem o sentimento de empatia, de sensibilidade diante da dor do outro”. Nesse sentido, para se permitir ser solidário em relação àqueles que vivem situações de desrespeito aos seus direitos humanos, tais como: refugiados, negros, mulheres, homossexuais, sem teto, sem-terra, entre outros, é preciso ter coragem. Coragem que se colocou como tema das aulas de Geografia e que dá a tônica a uma parte do diálogo de Reinaldo e Riobaldo,  a bordo da frágil canoa que desemboca no Rio São Francisco.

Palavras-chave: Direitos humanos; Formação humanitária; Empatia;

 

Aguida Nair Lafetá Lyrio Brant

Leonardo Tadeu Nogueira Palhares

Instituição:  Universidade Estadual de Montes Claros

Título do Trabalho: Dalton Trevisan e sua “crítica” sobre Grande Sertão

Resumo: Lançado em 2010, o livro Desgracida, de Dalton Trevisan, traz um texto no qual se critica, de maneira ácida, a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A partir de tal texto, objetivamos analisar quais as depurações críticas que podem ser extraídas a partir dessa visão sobre o romance rosiano, bem como quais são as implicações e os efeitos os quais dele podem ser extraídos. Para tanto, buscaremos em pesquisadores que estudaram a obra de Guimarães Rosa, como Alfredo Bosi, Audemaro Taranto Goulart, Osmar Pereira Oliva, Dalton Trevisan, Alexandre Gaioto, Miguel Sanches Neto, Célio Yano, dentre outros investigadores da literatura que possam servir de instrumento para poder demonstrar as possíveis implicações da composição desta obra (que, desde o princípio, já se propõe a “falar mal do Grande Sertão”). Este aspecto foi utilizado como principal chamariz da obra mencionada e assim foi divulgado pela mídia.

Palavras-chave: Dalton Trevisan. Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa

 

Aira Suzana Ribeiro Martins

Instituição: Colégio Pedro II – Rio de Janeiro

Título do Trabalho: A sonoridade na obra de Guimarães Rosa

Resumo: Como sabemos, a pontuação na obra de Guimarães Rosa é singular. Nas histórias do escritor mineiro, os sinais de pontuação têm um papel especial, que é a recriação do ritmo da fala do homem interiorano. A valorização do aspecto sonoro pode ser também observada na seleção lexical, com o emprego de palavras com seu sentido primeiro ou com a utilização de vocábulos que caíram em desuso. Na busca da palavra exata para mostrar o som e o ritmo do sertão, Guimarães Rosa também inventou palavras. Nosso trabalho, fundamentado na teoria semiótica de Peirce (1914), pretende mostrar os interessantes efeitos sonoros presentes na obra do autor, graças à busca pela palavra perfeita, que se conseguiu pela revitalização da língua e pelos processos de criação de palavras. Buscam-se, ainda, as relações entre o trabalho com a sonoridade e o sentido do texto.

Palavras-chave: Pontuação. Som. Ritmo. Semiótica.

 

Alessandra Fonseca de Morais

Instituição:  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: “A Benfazeja” e algumas possíveis leituras

Resumo: O presente texto propõe realizar uma nova leitura do conto “A benfazeja” de Guimarães Rosa, por meio da imagem feita por Luís Jardim para o livro “Primeiras Estórias”, na edição de 1962. Para tanto, abordaremos, na introdução, algumas reflexões sobre a relação palavra-imagem, suscitando uma pergunta: ‘Como poderíamos articular a leitura do conto “A benfazeja”, com a imagem do índice do livro?’ A seguir, faremos uma possível tradução intersemiótica dos desenhos referentes ao conto que estão na 2ª orelha do livro e seus diálogos com o texto escrito; desta forma pretendemos expandir as possibilidades de interpretação da obra literária. A estória eleita para este estudo é a de número XVII, e possui símbolos que nos permitirão um desdobramento a cada interpretação, a cada olhar, o que pode significar a possibilidade de criar um mundo diverso e edificado na e pela linguagem, no qual, através dos jogos polissêmicos e intertextuais se enredam as narrativas. De forma arbitrária, decidimos eleger a leitura começando do centro para as extremidades, tendo em vista que as imagens que não estão no centro se repetem,  numa espécie de jogo de espelhos, exceto as duas imagens que estão nos polos: na esquerda, a lemniscata e na direita, o símbolo do signo zodiacal de escorpião.

Palavras-chave: A benfazeja. Relação palavra-imagem. Interpretação dos textos.

 

Alexandra Loiola Sarmento

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES

Título do Trabalho: A selva escura e as veredas de Rosa

Resumo: No conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, a transformação operada na alma do protagonista incide sobre o seu comportamento, fazendo nascer um homem novo. O caminho por ele percorrido, do mundo da desordem em direção ao mundo da ordem, identifica-se com o itinerário do peregrino narrado por Dante Alighieri n’A Divina Comédia. Em correspondência com o seu tradutor italiano, Edoardo Bizzarri, Guimarães Rosa afirma ter buscado nos clássicos as formas basilares dos temas universais, sendo A Divina Comédia uma das obras de sua predileção. O presente trabalho, além de explorar no conto o diálogo com a temática dantesca da purificação da alma, acompanha o percurso de Augusto Matraga, do inferno ao paraíso, compara as imagens da escalada na Comédia com a caminhada pelas veredas do sertão e faz uma leitura analítica e interpretativa das passagens em que o referido conto de Rosa retoma os versos de Dante.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Sagarana. Dante Alighieri. A Divina Comédia. Purgatório.

 

Alice Botelho Peixoto

Instituição:  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: A trajetória de “O burrinho pedrês”

Resumo: O primeiro conto da recolha Sagarana, O burrinho pedrês, narra a trajetória de um burrinho tocando boiada no sertão mineiro. O burrinho já velho e sábio é incorporado à turma de vaqueiros por ter cometido um erro, posto na narrativa como algo do destino. Neste breve estudo, analisaremos a estrutura dessa narrativa de contornos trágicos, nos apoiando nos estudos da mitologia greco-latina do professor e teórico Johnny Mafra. Ao identificar alguns elementos trágicos nesse conto de Guimarães Rosa, exemplificaremos também alguns aspectos da teoria narrativa de Chistopher Vogler. O teórico considera a história do herói como uma jornada, que segue um padrão narrativo já consagrado. Identificaremos, então, algumas das etapas que o burrinho atravessa para cumprir seu périplo, incluindo a superação dos obstáculos. O animal, que recebe características antropomórficas, é o herói da história. Assim, analisamos sua situação inicial, seu percurso pelo sertão até seu retorno à fazenda, sua morada, de onde todos saem para tocar essa boiada. Ainda, buscaremos desvendar um pouco da simbologia do burro, animal comumente presente em fábulas. A estrutura desse conto se compõe também de outras histórias, parte da diégese principal, que estudaremos segundo a perspectiva de teóricos como Shlomith Rimmon-Kenan, Cândida Villares Gancho, entre outros estudiosos da narrativa.

Palavras-chave: Narrativa. Jornada. Trágico. Herói. Conto.

 

Aline Macedo Silva Araújo

Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto  e Instituto Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Sabores de Rosa e Sertão

Resumo: A presente comunicação pretende observar como as práticas alimentares foram empregadas por Rosa, na obra Grande Sertão: Veredas (1956) e chanceladas pelas percepções produzidas pela memória coletiva e pela memória histórica. Analisaremos como códigos fornecidos pela narrativa riobaldiana, mais especificamente aqueles relacionados à alimentação e à comensalidade, possuem valor simbólico intrínseco que extrapola o anedotário. A análise se pautará no campo dos estudos da memória, fundamentalmente tomando como referência as concepções propostas por Maurice Halbwachs acerca da memória coletiva, por Pierre Nora e seu conceito Les Lieux de Mémoire (1984) e por Ricoeur e sua análise sobre a rememoração. Também se constituem importantes para o nosso estudo trabalhos teóricos que abordam a relação entre a literatura e a memória cultural, como a obra Cultural Memory Studies: an International and Interdisciplinary Handbook (2008), organizada por Astrid Erll e Ansgar Nünnig, e as teorias sobre o romance de Mikhail Bakhtin em Questões de literatura e de estética: a teoria do romance.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Alimentação. Mémoria. Grande Sertão: Veredas.

 

 Almir Paraka Cristovão Cardoso

Instituição:   Rede Ser-Tão do Vale do Urucuia

Título do Trabalho: O Caminho do Sertão – de Sagarana ao Grande Sertão

Resumo: O Caminho do Sertão de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas pelo Cerrado e suas Culturas, de pé! Sertão dos Gerais Arinos (MG) / Chapada Gaúcha (MG).
Este relato visa a apresentar uma abordagem sobre o projeto ‘O Caminho do Sertão”, uma proposta de imersão socioambiental, cultural e de turismo sustentável desenvolvida nas regiões noroeste e norte de Minas, a partir do universo literário de Guimarães Rosa, das peculiaridades geográficas que envolvem o cerrado e da riqueza nos saberes e fazeres dos habitantes dos vales dos rios Urucuia e Carinhanha, no noroeste mineiro. No referido projeto, propõe-se uma jornada de 160 km, a ser percorrida a pé, em 7 (sete) dias, saindo do distrito de Sagarana, no município de Arinos-MG, para chegar à cidade de Chapada Gaúcha. Em Sagarana, primeiro assentamento de reforma agrária da região, implantado na década de 1970, está situada a Reserva Biológica de Sagarana, onde ocorre anualmente o “Festival Sagarana: Feito Rosa para o Sertão’. Não distante dali está Chapada Gaúcha, cidade-sede do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas. Em Chapada ocorre, todo mês de julho, o “Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas”. Assim, tomando como motivação a leitura das obras de Rosa, especialmente Sagarana e Grande Sertão: Veredas, o projeto propõe uma jornada que percorre parte do caminho realizado por Riobaldo e seu bando rumo ao Liso do Sussuarão, suposto deserto do Grande Sertão: Veredas. A travessia passa pelo Urucuia, pelo Ribeirão de Areia e pelo Vão dos Buracos. É uma jornada socioambiental pela diversidade do cerrado mineiro, em que se fundem veredas, lagoas, rios, comunidades tradicionais, povoados, assentamentos de reforma agrária e grandes fazendas do agronegócio. É uma oportunidade de os caminhantes despertarem o olhar para a crise hídrica e para o processo de desertificação que ameaçam a região, além de refletirem sobre mudanças necessárias para manterem vivos os cursos d’água, os ativos ambientais e toda a riqueza cultural das comunidades sertanejas.

Palavras-chave: Literatura. Guimarães Rosa. Turismo sustentável. Cultura.

 

Alvaro Guedes Castilho Júior

Instituição: Empresa Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Diadorim/Diomedes, devoção-neblina.

Resumo: Diadorim é a neblina de Riobaldo. O que se esconde sob a neblina? Essa percepção obnubilada constitui a visão do amor de devoção que Tatarana nutre pelo companheiro, a qual tanto esconde quanto mostra algo das motivações de ambos, no espaço ficcional de Grande Sertão: Veredas. Diadorim é escuridão reveladora, dúplice dom, como propõe uma das significações de seu nome – di (a) + dorom –, marca do “grande Princípio de Reversibilidade”, que, segundo Antonio Candido, permeia a narrativa de Rosa. Diomedes, herói da Ilíada, expressa devoção à deusa Atena, para que esta o fortaleça em sua aristeia. Ela o faz. E mais: abre seus olhos, retira a neblina  que esconde a realidade dos deuses, permitindo ao seu guerreiro de predileção atuar. A neblina, aparato teofânico por excelência no épico, é percebida como sinal de atuação divina que, paradoxalmente, não deixa reconhecer as especificidades dos deuses, a não ser quando eles permitam. Nesta comunicação, debruçamo-nos sobre as relações entre a neblina e a revelação de significados nas duas obras, enquanto encobrir e desencobrir da verdade, comparando as personagens pela chave da atitude devocional que, para uma, resulta em um complexo de incertezas (Diadorim) e, para a outra, no exercício do triunfo (Diomedes), a partir de uma relação diametral. Nesse sentido, baseio-me na concepção da verdade como desvelamento, conforme a análise filosófica que tal palavra recebe na obra de Martin Heidegger.

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas. Ilíada. Diadorim.  Diomedes. Neblina. Verdade. Devoção.

 

Ana Lúcia Magela

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (aposentada)

Título do Trabalho: Diadorim: a astuciosa mulher travestida de jagunço

Resumo do trabalho:

Reinaldo/Diadorim é a personagem feminina emblemática de Grande Sertão: Veredas. É em Diadorim que a astúcia se faz sempre presente e decorre da ambiguidade androgênica que caracteriza a personagem. Como a deusa Atena, que também não conheceu a mãe, esta heroína sertaneja estava marcada com semelhanças que nos permitem alguma analogia entre ambas e é o que propomos neste texto. Já no primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim, as diferenças entre os personagem ficam marcadas. Tudo era diverso das vivências, sentimentos e atitudes do menino pobre, bastardo e esmolante da beira do barranco. Diadorim era menino mocinho […] de finas feições. Aquele rio São Francisco que iam atravessar,  a semelhança de Diadorim, tão poderoso, tinha uns sussurros de desamparo.  Já Riobaldo era o ribeirãozinho de janeiro, tranquilo e de águas claras. O cruzar de um ribeirão com as agitadas águas do rio São Francisco era a travessia que já se anunciava na vida de Riobaldo. Tal como a liderança de Atena, Diadorim, ardilosamente, mantinha Riobaldo na jagunçagem, apelando para o ético compromisso de honra de limpar o sertão dos maus e vingar a morte de Joca Ramiro. Atena, a deusa vestida de armadura, tinha um aspecto belo e austero. Diadorim, vestida de jagunço, tinha os atributos femininos de seu corpo sempre ocultos, seu corpo era um escondido. Esses atributos de ambas compõem um arquétipo androgíne. Um hibridismo como uma disforia de gênero que as fazem permanecer na eterna dualidade. Nenhuma das duas sentiu-se gestada e parida por uma mulher/mãe, nem sugaram o leite materno ou dormiram no colo de uma mulher. Atena já nasceu adulta, do crânio do pai e vestida para a guerra. Diadorim não conheceu a mãe e sua referência maior era Joca Ramiro, jagunço chefe, seu pai.

Palavras-chave: Astúcia. Hibridismo. Mito.

 

Ana Maria Bernardes de Andrade

Instituição:  Colégio Pedro II

Título do Trabalho: A astúcia em Sagarana

Resumo: Este trabalho estuda a presença da astúcia nas sagas de Sagarana, concentrando a leitura do livro em duas de suas estórias: “O burrinho pedrês” e “Traços biográficos de Lalino Salathiel ou A volta do marido pródigo”. A busca de elementos que caracterizem o comportamento astucioso de personagens e narradores na saga rosiana, a partir da interpretação dessas estórias, visa a verificar a importância desse elemento na constituição da mundividência do autor, expressa em sua obra de ficção. Percebe-se na ficção do escritor mineiro uma narrativa polifônica, harmoniosamente orquestrada, a representar o drama humano, onde a luta travada é entre a vida e a morte. Os desafios topados pelos viventes incitam-nos a saltar o abismo, entregar-se à correnteza, contar com o acaso. A causalidade moralizante de enredos tradicionais, na qual para todo crime deve ter castigo e para todo bem haverá recompensa, simplifica a complexidade do processo vital em si mesmo, em que o inusitado sempre acontece e para cada verdade há sempre uma margem de barganha. A relativização dos valores tradicionalmente impostos, presente na saga rosiana, coaduna com a vida à revelia, às vezes mais bem compreendida pelo saber de experiências feito do que pela metafísica cartesiana. Na mitologia grega, o deus Hermes aponta para o caráter astucioso de quem transita entre o céu e a terra. Farias (2005) demonstra a presença da astúcia de Hermes a temperar as estórias de Tutaméia, onde “o fim se metamorfoseia em início, a perda se metaformoseia em ganho. O infernal ascende ao celeste, o abissal se transfigura em alado. O pesado vira leve, o grave se torna ligeiro, o triste se transforma em alegre.”
(p. 199). A organicidade da obra rosiana permite-nos perscrutar essa característica em Sagarana, onde já se manifesta a poética do autor.

Palavras-chave: Astúcia. Sagarana. Crítica.

 

André Luís Mourão de Uzêda

Instituição:  Colégio de Aplicação da UFRJ

Título do trabalho: O diabo na HQ, no meio da sala de aula

Resumo do trabalho:  A seguinte proposta de comunicação apresenta uma leitura da adaptação de Grande Sertão: Veredas para Histórias em Quadrinhos e analisa sua potencialidade de mediação de leitura da grande obra de João Guimarães Rosa para o jovem leitor literário em formação. A proposta de leitura leva em consideração a relação da arte ilustrativa de Rodrigo Rosa com a adaptação do texto original de Guimarães Rosa no roteiro de Guazzelli,  para a compreensão da obra em dois aspectos: no plano estético-formal, em que pese a estrutura da narrativa em monodiálogo; e no plano do conteúdo, com foco para a relação pactuária de Riobaldo com o diabo e sua transformação existencial enquanto homem  humano. Apresentada a análise, trazemos para discussão a adaptação de obras literárias para a linguagem da graphic novel como possibilidade de mediação de leitura de jovens para o universo de autores literários do cânone e sua aplicação em sala de aula. Nesse sentido, colocamos para o debate em que medida a adaptação de Grande Sertão interfere,  positiva ou negativamente, para aproximar o leitor literário em formação com a mundividência poética rosiana.

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa. História em Quadrinhos. Formação do leitor literário

 

Avani Souza Silva

Instituição:  Universidade de São Paulo

Título do Trabalho: O estupro no Grande Sertão: transgressão do herói

Resumo: No romance Grande Sertão: Veredas há referência ao fim do Império e ao início da República, dado referenciado pelo batistério de Diadorim. A passagem da coluna Prestes e à Velha República são referências importantes que tornam possível ambientar o tempo diegético no primeiro quartel do século XX. Tempo e espaço são elementos estruturais da narrativa importantes para localizar o contexto sociocultural da obra e compreendê-la nessa dimensão. Como lembra Antonio Candido (1989), o contexto social da literatura emerge de dentro da obra e não o contrário. Nesse sentido, e com essas marcas textuais, podemos apreender esse contexto e analisá-lo.
A conjuntura política e social do Brasil no início do século é fortemente marcada pela economia agropecuária e pastoril, num país agrário e de poucas conquistas sociais. As relações sociais caracterizam-se por forte dominação de setores oligárquicos, manifestando, em consequência, as evidências de superioridade de classe, de cor, de raça, de sexo. Nessa sociedade rural e patriarcal, os valores vigentes são os da família e da propriedade privada, não tendo espaço social para a aceitação de opções sexuais fora da moral sexual conservadora católica. Assim, configura-se a ideologia machista que oprime tanto homens quanto mulheres, destinando-lhes papéis sexuais pré-determinados na sociedade. As opções sexuais diferenciadas dos papéis tradicionais de homem e de mulher eram vistas como excentricidades e doenças. Particularmente no meio rural – e especialmente arcaico como era o ambiente retratado no Grande Sertão: Veredas –, o machismo era exacerbado e tinha no jagunço seu exemplo máximo. As relações sociais dos jagunços eram pautadas pela violência, pela defesa da honra e da palavra empenhada, pelo exercício autoritário do sexo, tendo a mulher como simples objeto de satisfação, sendo legitimado inclusive o estupro delas. A violência e arruaça dos jagunços, principalmente do bando de Hermógenes e Ricardão, não tinha limites, era de maldade sem igual, arruaça holocáustica. Nesse universo prevaleciam os valores ideológicos machistas: supremacia do homem, da força, exercício da virilidade, do mandonismo. A própria guerra, a que os jagunços dedicavam a vida, é um espaço de embate masculino. O cenário retratado pelo romance leva-nos a um Brasil arcaico, atrasado, sem respeito às instituições e às leis do país. O jagunço vive à margem disso tudo, guiando-se pelas suas próprias leis, promovendo inclusive tribunais no sertão, onde será exercida a autoridade que rege aqueles lugares ermos, tentando colocar disciplina e hierarquia nos bandos mediante a obediência de leis internas ao grupo, às vezes incompatíveis com a ordem social vigente. O tema de que vamos tratar é o da violência de gênero, especificamente o estupro. Para análise das questões de violência contra a mulher, baseamos nossas leituras em Vigarello (1998) e Saffioti (1995).

Palavras-chave: Estupro. Violência. Transgressão.

 

Bianca Magela Melo Silva

Instituição:  Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Título do Trabalho: Manuelzão e Miguilim singulares de uma comunidade potencial

Resumo: Propomos uma apresentação com ponto de partida na seguinte hipótese: algumas novelas de Corpo de Baile problematizam uma discussão com lastro na atualidade: a instabilidade das comunidades às quais pertencemos ou queremos pertencer. Exemplificando com duas novelas, Campo Geral e Uma estória de Amor (Festa de Manuelzão), tentarei mostrar primeiro a dificuldade de falar em comunidades fixas e seguras nos moldes dos agrupamentos tradicionais. Sendo tanto Nhô Bernardo, pai de Miguilim, quanto Manuelzão capatazes, vivem diariamente o impasse de comandarem trabalhos em uma terra que não lhes pertence, o que faz das fazendas instância provisória de territorialidade e arenas vazias (Deise Dantas Lima, 2001), considerando que o fazendeiro está distante e a fazenda é o espaço de uma luta de classes que efetivamente não se dá. Os dois capatazes em questão estão preparados para migrarem dali sempre que o dono da fazenda sinalizar ou que houver promessa de pobreza menor em outro canto remoto. Tendo tal situação em vista e em outra frente de reflexão, será feito um esforço para aproximar personagens pinçados nestas instâncias provisórias de territorialidade,  especialmente Manuelzão e Miguilim, como tipos identificáveis de uma outra comunidade maior, sem chão e limites marcados. Seguindo autores, como Roberto Vechi (2009) e Agamben (A comunidade que vem, 1993), abordaremos a comunidade que se comunica pelos não ditos dos tipos singulares que a compõem. Os membros são instáveis e podem falhar sempre na condução da palavra desta comunidade, mas são eles os seres com quem se conta. Como afirmou Roberto Vecchi (2009), é a comunidade fora da imanência de uma comunhão orgânica implicada pela própria forma comunitária. A partir do reconhecimento da incompletude que seria inerente a todo ser, explica Vecchi, poder-se-ia dizer que a falta pressupõe uma tendência para a comunhão, uma exposição para o outro, ao ponto que o comum não seria marcado tanto pelo próprio, mas pelo impróprio, ou seja, de modo mais drástico pelo outro, justamente. É uma comunidade no nível do porvir que se realiza como potencialidade, como um insight de compreensão que alguém tem, por exemplo, para com Miguilim; ou com a comunidade perfeita e idílica para a qual Manuelzão se transporta e encontra seu semelhante via narrativa do velho Camilo.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Corpo de Baile. Comunidade. Manuelzão. Miguilim.

 

Carlos Vinícius Teixeira Palhares

Instituição:  Colégio Tiradentes

Título do Trabalho: A voz narrativa em Famigerado e Grande Sertão

Resumo: O presente artigo pretende investigar as possibilidades acerca do narrador no conto “Famigerado”, do livro Primeiras Estórias e de Riobaldo, narrador do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O foco da análise se concentra em narrativas tecidas pela atividade da memória, da rememoração, pelas quais se vislumbram  histórias em que mobilizam experiências de violência no espaço do sertão. As imagens desses sujeitos, submetidos à opressão, não se configuram em narrativas caracterizadas por um tipo de registro temporal linear em que o passado e o presente aparecem ligados de forma causal, respeitando, assim, a ordem cronológica. Os narradores do conto e do romance, marcados pela crise mimética, se constituem como parâmetro de comparação, na medida em que absorvem os elementos do mundo social. Assim, ambas as narrativas resultam da atitude deste narrador performático de apoderar-se da palavra de acordo com sua necessidade, fazendo do texto um espaço de comunicação.

Palavras-chave: Narrador. Memória. Linguagem.

 

Cícero Ferreira Pinto Neto

Instituição:  Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES

Título do Trabalho: Estudo intersemiótico de Grande Sertão: Veredas

Resumo:  Esse trabalho tem por objetivo investigar, com base na teoria semiótica, o livro Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa, e a cantata cênica “Ser Tão Dentro da Gente” (1994), ainda inédita, de Raul do Valle e Carlos Rodrigues Brandão. Serão explicitadas, dentro da teoria semiótica, as relações existentes entre a obra e a referida cantata, da qual procuraremos descrever os quatro movimentos: vermelho (primeiro tempo), azul (segundo tempo), verde (terceiro tempo) e marrom (quarto tempo), utilizando para isso as postulações do filósofo Empédocles sobre os quatro elementos: fogo, ar, água e terra, que são motes, respectivamente, para cada movimento da cantata. Pretendemos traduzir as imagens do sertão rosiano, evocando, dessa forma, esse universo de Grandeza cantável, como diz Riobaldo. A semiótica e da musicalidade serão a abordagem teórica a partir da qual o romance e a cantada serão estudados, desenvolvendo o diálogo com os quatro elementos: gênese que dá corpo, alma e memória à essência de toda a ação narrada pelo velho jagunço. Nessa medida, tentaremos mostrar como o romance pode ser compreendido como uma grande música, com letra, melodia e ritmo, sendo capaz de (re)construir sensações, imagens, sabores, cheiros; enfim, de provocar a excitação dos sentidos que evocam lembranças, abrindo um canal de diálogo profundo com o mundo sertanejo.

Palavras-chave: Literatura de Minas Gerais. Cantata Cênica. Musicalidade. Semiótica

 

Daniel Sousa Rocha

Instituição:  Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: As influências do medo em Grande Sertão: Veredas

Resumo: Segundo o Houaiss digital (junho, 2009), medo significa “estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência; temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio; apreensão em relação a (algo desagradável)”. Durante a leitura de Grande Sertão: Veredas,  percebe-se a recorrência da palavra medo, assim como de referências diretas e indiretas a este sentimento. De acordo com Afonso Ligório Cardoso, em sua tese “As formas do medo em Grande Sertão: Veredas” (2006), o medo é citado diretamente em uma a cada duas páginas.
Este trabalho pretende, portanto, mostrar a manifestação do medo em alguns trechos do romance; vamos observar como o medo pode ser visto como elemento interventor do enredo e caracterizador das personagens, pois se trata de uma emoção que influencia no comportamento de todos (que sucumbem ou que resistem), alterando, assim, o desenrolar da história como um todo. Para cumprir tal objetivo, será feita uma pesquisa bibliográfica sobre a presença e a importância do medo na literatura e na obra de Guimarães Rosa e, simultaneamente, na Ilíada de Homero. O elemento principal a ser focado será o equilíbrio, ou, como afirma Homero, o tremor de pernas provocado pelo medo. Em seguida, tentar-se-á comprovar a influência do medo como elemento desencadeador ou paralisador de ações no Grande Sertão: Veredas, tomando como base o trecho em que Riobaldo conhece Diadorim, no qual fazem a travessia do rio em uma canoa.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. Medo.

 

Danilo Almeida Patrício

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais /FAPEMIG

Título do Trabalho: Narrar acidentes: outro sertão de Corpo de Baile

Resumo:  Nossa proposta quer pensar  Corpo de Baile – sua escrita, invenção, saberes – como lugar de “escrita da natureza”, partindo das considerações de Michel de Certeau (A Escrita da História; História e Psicanálise) relativas à escrita que dá sentidos, em diálogo com que levanta como “romance histórico” do “freudismo”. Tal perspectiva potencializa que, a partir de “Campo Geral”, novela matriz de Corpo de Baile, atentemos para a narração do sertão destacando o que estaria recalcado segundo os preceitos de uma historiografia mais convencional (um passado morto e a distância entre lugar de escrita e objeto pesquisado). Ao contrário,  a “escrita da natureza”, em vez de um sertão nostálgico, quieto e acabado, externa um sertão vivo escrito com “o libidinal, os afetos, a fruição orgástica e festiva” (CERTEAU, 2011, p. 88,89). Escrita da natureza, pois o homem – a pulsão ligada ao sertão pela linguagem – situa-se na narração como parte dela, em meio às recordações e anseios, em conflito. Ele, em Campo Geral, desencadeia-se a partir dos embates amorosos ocorridos na família, com a mãe de Miguilim sendo disputada pelo pai e o tio do menino. A partir dessa trama, lemos a narração do sertão ampliada a um vasto mundo, formando por exemplo pelos vaqueiros, os bichos e plantas, atuantes na narrativa, e os personagens de intensa inquietude, como a cozinheira Mãitina, “preta africana” que “bebia cachaça” e teimava em “compor seus calunguinhas”, arranhando os padrões vigentes, como desconstrução das imagens de um sertão suposto como ideal, supostamente puro. Com personagens como ela, podemos ler o sertão, como narrativa de sentido para a história, não como uma grande parte homogênea do Brasil, mas sim como “vasta heterologia”, conforme expressão de Certeau, pensando os percursos de “particularidades” que, como destaca o mesmo, farão sempre “surgir diferenças”. Assim queremos conceber o sertão, imbricado à experimentação de linguagem que agrega pluralidade de saberes. Eles são “incorporados”  no livro,  espalhando-se pelas demais novelas, como dança que rompe uma “cartografia  ligada ao racional” (BOLLE, 2004) e se afirma por uma narrativa que se delineia pelo sonho, com aqueles que estão “próximos” de Rosa. De acordo com Paul Ricoeur, “os próximos são essas pessoas que contam para nós e para as quais  contamos” (2007, p. 141). Com a marginália sertaneja, seus trapos (diferentes entre si), confrontados aos bons modos do poder, o texto se constrói como região que rompe com “o corte” que separaria precisamente indivíduos e coletivo. Na metáfora artística que dá título ao livro, o sertão será lido como um “mapa com acidentes”, tal como verso do poema homenagem de Drummond (ROSA, 2009, p. 11). Ele se externa em formas que, em vez da linearidade, tecem-se na coexistência de coisas, no narrar de simultaneidades. Nosso objetivo é, a partir de Campo Geral, destacar como se dá a “transformação de ordem espacial em série temporal” na “peça” artística (CERTEAU, op. cit., p. 98).

Palavras-chave: Sertão. Escrita. Saberes. Invenção. Diferenças.

 

Denis Leandro Francisco

Instituição:  IFMG

Título do Trabalho: Guimarães Rosa e Lobo Antunes: poéticas do interdito

Resumo: Sob a perspectiva do comparativismo  literário, este trabalho propõe uma aproximação entre Grande Sertão: Veredas, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, e Que farei quando tudo arde?, do escritor português contemporâneo António Lobo Antunes, a partir da análise do procedimento de interdição/interdito que sustenta essas narrativas e que se efetiva tanto na transmutação recorrente de suas personagens quanto na transformação/transgressão da língua portuguesa e da linguagem literária empreendida por esses dois escritores. O segredo/mistério narrativo da identidade de Diadorim em Grande Sertão encontra sua forma análoga na personagem Paulo, de Que farei quando tudo arde?: a metamorfose identitária vivenciada por essas duas personagens e revelada após a desconstrução do interdito narrativo obriga o leitor a uma remodelação das inferências e a uma consequente reorientação da leitura realizada. Esse duplo procedimento de interdição e transgressão linguística e ficcional constitui-se como base comum para a formulação da poética desses dois autores fundamentais das literaturas de língua portuguesa.

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas.  Guimarães Rosa. António Lobo Antunes. Heterogeneidade.  Interdição. Interdito. Transgressão.

 

Edgar Cézar Nolasco

Instituição:  Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Título do Trabalho: Guimarães Rosa ao sul da fronteira

Resumo: O ensaio visa discutir acerca da contribuição que o escritor João Guimarães Rosa proporcionou aos conceitos de fronteira-sul, paisagem e localismos, tendo por base os contos “Sanga Puytã” e “Cipango”, os quais discutem acerca de lugares e colônias encontrados na fronteira-Sul de Mato Grosso do Sul, de quando o escritor por aqui esteve em 1947. Tais contos,  assumindo um caráter narrativo de relato, ou impressão de viagem, por se voltarem para a realidade fronteiriça do lugar, contribuem para ilustrar conceitos específicos da zona de fronteira, como o de paisagem, local e o de fronteira. Valendo-me de uma visada crítica de base pós-ocidental, cuja epistemologia é de base fronteiriça, postulo a ideia de que esses contos, entre outros presentes no livro Ave, palavra, podem ilustrar tal discussão, contribuindo, assim, para uma melhor sistematização conceitual acerca do lócus fronteiriço em questão. Além dos conceitos destacados, tais contos também permitem que conceitos como o de transculturação e o de hospitalidade possam ser mais bem explorados, visando explicar melhor o que se entende na fronteira-sul por cultura local. Entre os livros que servirão de base para a discussão, destaco: Histórias locais\Projetos globais (2003), de Walter Mignolo; Perto do coração selbaje da crítica fronteriza, de Edgar Cézar Nolasco (2013); El vuelco de la razón (2011), de Walter Mignolo;  Epistemologias do Sul ( 2010), de Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses, de Walter Mignolo; Epistemologias do Sul ( 2010), de Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses; entre outros.

Palavras-chave: Sanga puytã. Cipango. Fronteira-sul. Guimarães Rosa.

 

 

EDINÍLIA NASCIMENTO CRUZ

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: A festa como alegoria da consciência: uma leitura

 

Resumo: O objetivo desta comunicação é apresentar uma leitura da novela Uma estória de amor (Festa de Manuelzão) do livro  Corpo de Baile (1956), de João Guimarães Rosa, a partir do enfoque da festa como alegoria da consciência de Manuelzão. A inauguração da capela e a consolidação da fundação da Samarra sintetizam a história de Manuelzão e marcam a ruptura do cotidiano da fazenda e a configuração de dois mundos, o do trabalho e o do descanso. O acontecimento representa a dissolução entre a ilusão criada pelo aparato dos festejos e a realidade do trabalho diário. Propõe-se analisar a festa como uma imagem alegórica, que faz do sertão um espaço de coexistência entre a realização concreta de um feito e o vazio imensurável que a inauguração da capela produz na personagem protagonista. Este estudo seguirá as proposições teóricas de Walter Benjamin, Flávio Kothe e João Adolfo Hansen.

Palavras-chave: Corpo de Baile. Alegoria. Guimarães Rosa.

 

 

ELAINE CRISTINA ANDRADE PEREIRA

Instituição:  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: O sensível partilhado em João Guimarães Rosa: uma análise do conto Os irmãos Dagobé à luz da teoria de Jacques Rancière

Resumo:  O texto tem por objetivo analisar o conto  Os irmãos Dagobé, de João Guimarães Rosa, tendo como embasamento teórico a obra Políticas da escrita, de Jacques Rancière (1995). Tal leitura busca verificar as possíveis estratégias de escrita utilizadas por Rosa, que possibilitaram, dentro do discurso composto, novas reflexões acerca do discurso histórico pessimista, por meio da política do dizer. Essa estratégia inovadora, denominada por Rancière (1995) como a partilha do sensível, nos parece permitir a emersão de uma nova maneira de se fazer estética em literatura, tendo como possível objetivo propor novos olhares e interpretações literárias ao que se refere ao binômio estética/política.

Palavras-chave: Literatura. Política. Estética. Escrita. Partilha do sensível. Violência. Social.

 

ELISABETE BROCKELMANN DE FARIA

Instituição: UNIFEOB – Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos

Título do Trabalho: Aspectos lúdicos e poéticos em “Campo geral”

Resumo:  A narrativa “Campo geral” norteia-se pela temática da infância, representada nas vivências de Miguilim,  morador de um lugar distante no sertão mineiro. Destaca-se, na caracterização dessa personagem-protagonista, a sensibilidade aguçada para ver e sentir o mundo, mesmo que não possa entendê-lo em sua totalidade. A pesquisa tem como objetivo comprovar que a linguagem poética e os efeitos lúdicos derivam do imbricamento de algumas escolhas do escritor na estrutura da narrativa e do discurso. Um determinado tipo de narrador, exterior à diegese, combina-se com um focalizador específico, o protagonista, que “fala” por intermédio do narrador. Da focalização interna, proveniente da sensibilidade poética do protagonista, aliada à empatia do narrador, tem-se o discurso lírico-poético, sustentado também pelos aspectos lúdicos. No desenvolvimento da pesquisa, tem-se como apoio ensaios sobre o texto rosiano, como o pioneiro “A revolução Guimarães Rosa”, de Oswaldino Marques, e “O motivo infantil na obra de Guimarães Rosa”, de Henriqueta Lisboa. As cartas trocadas entre Guimarães Rosa e seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri são também fontes relevantes para este estudo. Da teoria da narrativa, conta-se com os postulados teóricos de Gérard Genette acerca da focalização e da narração em Discurso da narrativa. Para o exame da função poética da linguagem, a pesquisa baseia-se, principalmente, nos textos “À busca da essência da linguagem” e “Linguística e poética” de Roman Jakobson e nas obras O ser e o tempo da poesia, de Alfredo Bosi, e Conceitos fundamentais da poética, de Emil Staiger.

Palavras-chave:  Guimarães Rosa. Discurso poético.  Aspectos lúdicos. Campo geral.

 

 

Elisângela de Lana Costa

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

 

Título do Trabalho: Tradição popular e religiosidade em Guimarães Rosa

 

 Resumo: O principal propósito deste estudo é analisar o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, do autor João Guimarães Rosa, narrativa em terceira pessoa, que tem como protagonista o fazendeiro medonho Augusto que vive metido em confusões, mas, após ser atacado pelo major Consilva e ficar entre a vida e a morte, esforça-se para se transformar em uma pessoa melhor. O foco central a análise serão as estratégias do autor para valorizar o homem do sertão, com seus costumes e sua religiosidade. Um dos elementos importantes é a valorização extrema do espaço onde se desenrola a trama. Outros são as cantigas e os provérbios, contidos tanto na epígrafe do conto quanto ao longo da narrativa. Já a religiosidade funciona como a base de todas as ações do protagonista, havendo intertextualidade com a Bíblia, inclusive no momento final, em que Matraga se encontra com Deus ou com o além e perdoa seu inimigo. Outra forma de valorizar o sertanejo é dar voz a ele por meio do discurso direto. Há também a valorização da linguagem que foge à padrão, havendo uma rasura dessa, recriando-a por meio de neologismos, expressões regionais, gírias, além do uso constante de aliterações e onomatopeias. Já a fala do sertanejo é criada não apenas no plano do vocabulário, mas também da sintaxe e da melodia da frase. Partindo dessas questões regionais, o autor não só valoriza o sertanejo inserido em seu ambiente de grande riqueza cultural, com sua psicologia, sua língua e seus valores, mas também retrata os aspectos universais, como, por exemplo, o embate entre o bem e o mal e os conflitos da alma humana.

 

Palavras-chave: Tradição popular. Religiosidade. Conto.

 

Elisete Eustáquio Ferreira da Silva

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Ressonância do mito de Caronte em Guimarães Rosa

Resumo:  O mito grego relativo a  Caronte,  o barqueiro do Hades, condutor das almas na travessia da vida para a morte através das águas do rio Aqueronte, pode ser associado a elementos que fundamentam pontos da construção narrativa no conto de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio.  Caronte,  personagem condenado por Zeus a conduzir perenemente o próprio barco pelas águas do rio das dores, do infortúnio, aproxima-se da figura do pai, personagem que, no conto de Guimarães Rosa, decide isolar-se da vida assumindo o vagar interminável pelo rio. O personagem que se coloca, assim, nesse limiar simbólico entre a vida e a morte, movendo-se continuamente rio abaixo e acima, como condutor  solitário de sua canoa, propõe uma reflexão sobre o que constituiria o sentido da vida e da morte no contexto da narrativa. Percebe-se que ambos se permeiam e alcançam uma dimensão de ambiguidade: a negação da vida não representa uma aceitação efetiva da morte. A terceira margem do rio, como lugar intermediário em que se refugia o pai, seria a alternativa de conciliação de um estado de “não vida” e de “não morte”, como recurso de que se valeria o sujeito para escapar do absurdo da existência. Este limiar entre a vida e a morte, como espaço em que se busca alguma resposta a questões que abarcam a existência, é um tema recorrente no texto clássico. Em muitas criações textuais, tendo dentre elas como exemplos comprobatórios As rãs de Aristófanes e a Eneida de Virgílio, a figura de Caronte comparece como elemento que desempenhará o papel de condução de um sujeito inquisidor ao espaço da morte, sem que este, contudo, esteja efetivamente desvencilhado da vida.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Conto.  Vida e morte. Mito de Caronte.

 

 

Eloa Carvalho Pires

Instituição:  Universidade Federal do Espírito Santo – FAPES

Título do Trabalho: Tradução e Duplicidade em Sertão e Ser-língua

 

Resumo:  Em 2003, a Editora Nova Fronteira lança João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason  (1958 – 1967), organizada por Maria Aparecida Bussolotti e traduzida por Erlon José Paschoal. Esse livro revela diversos apontamentos acerca dos processos de tradução e (re)criação de Grande Sertão: Veredas e “a amizade mais estreita” (PASCHOAL, 2008, p. 186) surgida entre Clason e Rosa. Cinco anos após sua tradução da correspondência entre os dois citados escritores, Erlon José Paschoal, em Uma recriação fiel: Diálogos entre o autor e seu tradutor (2008), incita a ascendência do debate sobre a questão da convivência e proximidade entre autor e tradutor bem como suas consequências para a tradução de uma obra literária. A partir disto, procuraremos expor, à luz dos apontamentos de Paschoal e outros estudiosos do tema, como a relação entre autor/tradutor foi constituída de forma opositiva ao longo dos séculos sob  diferentes aspectos nas teorias de tradução. Em seguida, buscaremos apontar para o cerne dessa oposição nos estudos de tradução. Por fim, demonstraremos que, em uma relação de complementaridade, a aproximação entre ambos, autor e tradutor, não somente é prolífica para a (re)criação literária e para as discussões acerca dos estudos da tradução, mas também torna possível formular uma reflexão acerca de uma “tradução recíproca” (OTTONI, 2005, p. 16). Para tanto, tomaremos como base a proposta de Paschoal de “simbiose” (PASCHOAL, 2008, p. 187) para propor a “duplicidade da autoria” (LAGES, 2002, p. 82) de uma tradução literária.

 

Palavras-chave: Tradução.  Autor e tradutor.  (Re) criação literária.

 

 

 

 

Elson Dias de Oliveira

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES

Título do Trabalho: Uma leitura montaigniana de Grande Sertão: Veredas

Resumo:  Este trabalho analisa a constituição da amizade entre os personagens Riobaldo e Diadorim no romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, demonstrando pontos de convergência em relação à concepção de amizade no pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne. Verificamos que muito se tem dito e discutido sobre a “paixão” existente entre os personagens Riobaldo e Diadorim, mulher travestida de jagunço. Mas, dada a total impossibilidade de “efetivação” de um eros,  por que não problematizar a relação de amizade estabelecida? É o que propomos e, para tanto, partimos do seguinte princípio: não obstante o desejo físico em voga, o qual nem o próprio Riobaldo compreendia, o vínculo instaurado entre eles, imersos no regime de jagunços, é um vínculo de amizade. O narrador-protagonista propõe que revisitemos as duas faces de seu amor: mesmo não podendo se entregar efetivamente aos poderes de Eros, ele pôde gozar uma amizade verdadeiramente sem reservas, encantadora e indivisível: “amizade de amor”. Perquirindo as principais contribuições teórico-filosóficas  sobre o tema da amizade, percebemos uma estreita correlação entre as propriedades da amizade “riobaldiana” e as da amizade montaigniana, quais sejam: o império da intimidade ou, nas palavras do Montaigne, da “frequentação prolongada”; a preeminência da amizade relativamente aos códigos ético-político-sociais, isto é, a primazia do âmbito particular; uma suplantação da prática da virtude, indo de encontro a muitas concepções clássicas; a questão da inexplicabilidade ou imensurabilidade, no sentido de encantamento; a radicalização da limitação da quantidade de amigos “verdadeiros”, cabendo aos demais compartilhar de amizade outras, “comuns”, ou outras formas de amor.

Palavras-chave: Amizade. Grande Sertão: Veredas. Michel de Montaigne.

 

 

Erich Soares Nogueira

Instituição:  FACAMP (Faculdades de Campinas)

Título do Trabalho: Guimarães Rosa e o mito de Babel

Resumo:  É conhecida a seguinte declaração de Guimarães Rosa: “Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel”. A comunicação tem o objetivo de mostrar como Guimarães Rosa, ao assumir a inevitável condição simbólica de escrever depois de Babel, elabora uma renovada con-fusão da linguagem (aliás, com elementos que envolvem o conhecimento de cerca de dezoito línguas estrangeiras) em busca de uma eficácia poética que possa aludir a uma impossível língua antes de Babel, a essa ausência irreparável, no dizer de Daniel Heller-Roazen (Ecolalias, 2010). Serão consideradas algumas passagens da obra do Guimarães Rosa, além de uma breve discussão teórica em torno de seu trabalho literário, de modo a mostrar que a resposta que Rosa dá a essa condição simbólica de todo escritor termina por operar, inclusive, uma notável inversão em ideias nucleares do mito de Babel.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Eficácia poética. Mito de Babel.

 

 

Everton Luís Farias Teixeira

Instituição:  Universidade Federal do Pará – UFPA

Título do Trabalho: “O senhor sabe o perigo que é viver”: O banditismo

Resumo:  Partindo do estudo da trajetória do maior protagonista do século passado, o homem comum, esta comunicação adentra por um caminho metodológico que passa em meio aos pressupostos da análise comparatista e aos da Estética da recepção jaussiana, ao propor um diálogo entre a literatura brasileira e a historiografia contemporânea por intermédio do exame de Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967) e de duas obras que, mesmo separadas por uma década, se complementam, Rebeldes primitivos (1959) e Bandidos (1969), do historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012). Rosa, em diferentes momentos, parece aproximar a sua narrativa dos métodos de pesquisa histórica, realizando uma espécie de análise da realidade e dos comportamentos desenvolvidos por indivíduos simples como, por exemplo, seus modos de agir e de pensar as grandes questões telúricas e metafísicas. Desta forma, o objetivo a ser alcançado neste trabalho é a leitura da produção literária com o aporte histórico e a análise da história com base na interpretação da literatura. Em outras palavras, significa, por um lado, ampliar a vereda interpretativa do único romance rosiano tendo como lente de aumento o tema do “banditismo social” inaugurado por Hobsbawm, haja vista que, apesar de contemporâneos, os trabalhos destes dois intérpretes nunca foram postos devidamente em confronto. Por outro lado, busca-se contribuir com este ramo da história comparada trazendo à tona o jagunço nordestino, amostra de celerado indômito que escapou à classificação do historiador inglês, mas que ainda assim obedece a muitos quesitos por este estabelecidos, embora a escrita rosiana os tenha embaralhado intencionalmente. Este trabalho, por fim, busca ser uma homenagem simultânea aos setenta anos da estreia do ficcionista mineiro para o grande público — tendo como pedra inaugural a coletânea de contos Sagarana (1946) — e, simultaneamente, lembrar a proximidade do centenário daquele intelectual inglês, ambos atentos observadores-participantes do século XX.

Palavras-chave: Eric Hobsbawm. Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.  Bandidos.

 

Fábio Borges Brasileiro

Instituição:  Universidade de Brasília

Título do Trabalho: O melancólico decadentista dos trópicos: Guimarães

Resumo:  As personagens Miguilim, Pedro Orósio e Riobaldo (o jovem jagunço e o velho narrador) de Corpo de baile (“Campo geral” e “O recado do morro”) e Grande Sertão: Veredas são como o escritor Guimarães Rosa foi: “especulativos demais”. As pistas com as quais se rastreia pelo avesso as aventuras do espírito do escritor e suas personagens, e que se pode caracterizar como índole filosófica e metafísica, nos revelam a experiência da alegria e uma pedagogia do espírito. Todo especulativo rosiano busca encontrar a alegria. Nesta comunicação vamos percorrer alguns exemplos dos três textos rosianos que nos permitem – reconhecendo essa síntese entre filosofia e criação literária, que Agamben destacou como típica dos melancólicos e decadentistas – e tomando como ponto de partida os verbetes saudade e brasilidade, compreender parte da poética do escritor de Cordisburgo.

Palavras-chave: Melancolia. Decadentismo. Saudade. Brasilidade. Ensaismo.

 

 

Fábio Figueiredo Camargo

Instituição: Universidade Federal de Uberlândia

Título do Trabalho: Aforismos em Grande Sertão: Veredas

Resumo: Em Grande Sertão: Veredas, a exemplo da linguagem filosófica, Guimarães Rosa cria ou se apropria de verdadeiros filosofemas  para demonstrar a inquietude inquiridora de Riobaldo.  Assim, este estudo, que integra o projeto “Enciclopédia do Grande Sertão”, relata as atividades desenvolvidas e os resultados obtidos quanto ao estudo de aforismos presentes em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Para Gisele Pimentel Martins, os provérbios manifestam-se como uma forma de organização das experiências vivenciadas, concretizada por meio de recursos sintáticos, semânticos e literários; constituem uma fonte importante para a análise da história social da linguagem e uma forma de materialização de situações e normas de consenso da sociedade. Dessa forma, podem ser compreendidos como conselho ou ensinamento de condutas e normas sociais estabelecidas. Assim, em Grande Sertão: Veredas as sentenças aforismáticas podem ser entendidas como forma de conceituar, esclarecer ou definir. Em outras palavras, existem sentenças que extrapolam o texto, podendo ser fragmentadas da prosa, formando, assim, uma cadeia singular de sentido. Há um conjunto de frases com um caráter seminal  que é enxertado na prosa para compor uma atmosfera que impulsiona o leitor à decifração. É exatamente esse estilo de escrita que se apropria de sentenças que possuem uma particularidade de sentido, as quais possibilitam a fragmentação, ao passo que carecem, sobretudo, de um apuro de reflexão; é esse arranjo literário que leva ao paradoxo que, aqui, chamamos de escrita oracular. A função do oráculo é a de aconselhar sobre o destino; entretanto, esses conselhos acontecem sempre de forma metafórica e enigmática. Nesse contexto, o aforismo encontra lugar como esse conselho, essa sentença moral que é, por antecipação, um enigma.

Palavras-chave: Aforismos. Grande Sertão: Veredas. Escrita oracular.

 

 

FABÍOLA GUIMARÃES PEDRAS MOURTHÉ

Instituição:  PUC Minas/ CEFET-MG

Título do Trabalho: A revolução da língua iauaretê

Resumo:  João Guimarães Rosa leva seus leitores a movimentarem-se, mobilizando-os, colocando-os em processo de mudança. É o que ocorre no conto Meu Tio o Iauaretê. Trata-se de potência que arrasta, provoca e tem a possibilidade de desalojar. Neste trabalho, investigamos o ápice da transformação, no plano linguístico, da elaborada e artificiosa criação da língua iauaretê. É possível também estabelecer pontes entre o conceito de devir, cunhado pelos filósofos Gilles Deleuze e Felix Guattari, e o referido texto. Cita-se como exemplo, a proposta do devir-animal, ideia que defende o rompimento de fronteiras entre o mundo humano e o mundo animal. Assim sendo, ao analisarmos o espaço em que a trama ocorre, caracterizamos as personagens.

Palavras-chave: Língua iauaretê. G guimarães Rosa. Meu Tio o Iauaretê

 

Felipe de Souza Ladeira

Instituição/Empresa: Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Auroras de guerras e de saudades: Homero e GSV

 

Resumo :  Na vida rural, do campo, o tempo é regido pelos ciclos naturais, a passagem do dia para a noite, da noite para o dia e pela mudança das estações. Em Grande Sertão: Veredas, o amanhecer e o entardecer dão ritmo à narrativa (E foi. Saímos dali, num pintar de aurora) assim como na Ilíada e na Odisseia (Ao aparecer, bem cedo, a Aurora de dedos róseos). Mas para Riobaldo, esses momentos também representam um contato muito próximo com Diadorim, uma saudade, que permite que o narrador descreva cheiros, sons, toques e sabores: tantas minudências (…) não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Assim, nossa proposta de comunicação visa traçar um paralelo entre o ritmo narrativo em GSV e nos poemas Homérico, tendo como base o amanhecer e o escurecer nas duas obras. Ao mesmo tempo, destacaremos que as auroras de Guimarães Rosa em GSV se constituem não só por imagens, mas pelos sons da natureza e pelo quadro psicológico de seu narrador.

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas.  Ilíada. Odisseia.  Aurora.

 

 

Franciane Conceição da Silva

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais / Bolsista Capes

Título do Trabalho: A representação da masculinidade no conto conto “Uma estória de amor”, de João Guimarães Rosa

Resumo: Neste trabalho, pretende-se analisar a representação da masculinidade no conto “Uma estória de amor”, de João Guimarães Rosa, a partir de uma discussão sobre o personagem Manuelzão, um homem que, na narrativa, aparece como forte, destemido, corajoso, mas que dissimula suas angústias e inseguranças, para obter respeito e reconhecimento e por medo de ter a sua virilidade questionada. Fruto de uma sociedade machista e patriarcal, Manuelzão passa a vida toda dando provas de macheza e virilidade, agradando aos outros, mas violentando a si próprio. Para tal debate, lançaremos mão das teorizações sobre as masculinidades, especificamente os estudos de Elisabeth Badinter e Sócrates Nolasco.

Palavras-chave: Literatura Brasileira. João Guimarães Rosa. Gênero. Masculinidades.

 

Gabriel Túlio de Oliveira Barbosa

Instituição:  Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Narrativas literárias no sertão mineiro

 

Resumo:  Na obra do escritor João Guimarães Rosa, o vínculo da vida sertaneja com o universo da pecuária extensiva e o vínculo do homem com a exuberância do meio natural é tratado de forma intensa e rica, em que o real e o fantástico se misturam e se entrelaçam na escritura poética. O autor, contudo, não pôde acompanhar as intensas transformações do cerrado nas décadas subsequentes à sua morte, em 1967, quando foram induzidas profundas modificações na dinâmica dos recursos naturais e no sistema de uso da terra. Por outro lado, mobilizada como referência catalisadora para ações e projetos locais, a obra rosiana  na contemporaneidade vem assumindo um papel estratégico e criativo de articulação sociocultural e ambiental em importantes localidades do território mineiro. Neste relato, pretendo apresentar algumas questões sobre o caminho reverso da dialética entre a ficção rosiana e a realidade geográfica sertaneja: como são transpostos e traduzidos os discursos do espaço ficcional de Guimarães Rosa para o espaço geográfico do sertão mineiro nos dias atuais? Qual o efeito/o resultado dessa interação? E como a obra e o espaço se transformam mutuamente? Será analisado um conjunto de iniciativas, cujo discurso parte da literatura, como uma inovadora narrativa de desenvolvimento baseada em perspectivas de intervenção e de mudança social.

 

Palavras-chave: Cerrado. Sertão.  Literatura. Guimarães Rosa. Geografia.

 

 

 

Geraldo Vicente Martins

Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS

 

Título do Trabalho: Todos os dias que depois vieram: morte e sofrimento

 

Resumo:  Narrativa impregnada por considerável teor lírico, cujo eixo central reside nos infortúnios vividos pelo menino Miguilim, “Campo Geral” alcança um de seus momentos mais densos no episódio da morte de Dito, irmão do protagonista e aquele com quem mais este podia contar nas diversas desventuras do cotidiano infantil. Dessa perspectiva, não é sem razão que as páginas dedicadas à morte do irmão de Miguilim e ao sentimento de dor com que ele passa a conviver nos dias que sucedem ao triste evento ocupem espaço importante no enredo rosiano. Tendo em vista a proeminência do episódio em questão, este trabalho busca analisar algumas figuras presentes no nível discursivo da narrativa que o abarca, visando a verificar como elas se organizam com vistas a dar conta da força expressiva comportada pelo relato. Para tanto, recorre-se ao instrumental da semiótica discursiva, teoria que se preocupa em compreender como se engendram os sentidos nos textos com que nos vemos às voltas.

Palavras-chave: Figuratividade. Discurso literário. Guimarães Rosa.

 

Heloisa Alves Braga

Instituição:  Escola Estadual Joaquim Corrêa

Título do Trabalho: Feminino demoníaco em Grande Sertão: Veredas

 

 

Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar as personagens femininas da obra Grande Sertão: Veredas, do renomado escritor mineiro, Guimarães Rosa, sob a perspectiva da visão sócio-historicamente  construída desde os primórdios, devido ao mito do pecado original, de que a mulher é um ser demoníaco, nascido para tentar o homem. Tal entendimento fez-se presente de forma mais evidente durante a Idade Média, porém ainda podemos encontrar resquícios nos tempos atuais – principalmente nas sociedades nas quais o fanatismo religioso predomina. Assim, procura-se verificar o mito da diabolização  da mulher por meio da presença de diversos elementos que reforçam este estigma em  algumas das personagens femininas da supracitada obra de Rosa, como, por exemplo: a prostituição, o adultério, a beleza, a clarividência, a feitiçaria e a morte. Toda a análise é de cunho bibliográfico e está baseada em grandes estudiosos do assunto como Davi Arrigucci Jr., Wille Bole, Leonardo Arroyo, João Adolfo Hansen, Rose Marie Muraro, Giovanni Papini entre outros.

 

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas. Feminino. Demoníaco.

 

 

 

Isabela Maria Oliveira Catrink

Instituição:  UNIMONTES

Título do Trabalho: A intencionalidade nos topônimos em Grande Sertão

 

Resumo:

A relação do homem com o ambiente é refletida, em parte, na nomeação dos lugares que ele ocupa, sendo a Toponímia responsável pelo estudo desses nomes. Dick (1990) afirma: se a Toponímia situa-se como crônica de um povo, gravando o presente para o conhecimento das gerações futuras, o topônimo é o instrumento dessa projeção temporal. Assim, torna-se importante refletir acerca dos topônimos e da intenção que os permeia, afinal, aqui, o signo tem caráter motivacional; é perpassado pela intencionalidade. Este trabalho possui como objetivo estudar a obra de Rosa Grande Sertão: Veredas, a partir dos topônimos nela constantes, de acordo com a teoria da intencionalidade, buscando analisar a motivação toponímica e rosiana na formação dos topônimos. Rosa descreve: […] Descemos a Vereda do Ouriço-Cuim, que não tinha nome verdadeiro anterior, e assim chamamos, porque um bicho daqueles por lá cruzou (ROSA, 2001, p. 416, grifo nosso). Temos, pois, nesse trecho, a prova da intencionalidade e da criação de toponímica de Rosa. Verifica-se a recorrência de uma motivação tradicional, por semelhança direta,  justificada pela presença do próprio bicho nomeador do topônimo. Constata-se, portanto, que a necessidade de transformar em palavras as experiências vividas enfatiza a ambígua, mas necessária, relação da palavra, do gesto e do objeto para a consolidação da experiência e da memória. Utilizaremos uma metodologia de cunho qualitativo, já que os dados obtidos serão analisados indutivamente, de forma descritiva. Assim, é preciso saber os mecanismos utilizados na obra para que o leitor construa o significado dos topônimos e estabeleça uma relação com os demais elementos da obra, sendo o estudo da intencionalidade toponímica de grande relevância, posto que os topônimos sempre possuem conteúdo informativo.

 

Palavras-chave: Topônimos. Intencionalidade. Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa

Jaciene de Andrade Santos

Instituição: Universidade Estadual de Feira de Santana

Título do Trabalho: Guimarães Rosa em diálogos sobre velhice e amor

 

Resumo:  Elaboramos, neste trabalho, uma leitura de “Luas-de-mel”, conto de Guimarães Rosa, do livro Primeiras estórias (1962), associada a noções sobre a velhice e o transcorrer do tempo presentes em Grande Sertão: Veredas (1956). O objetivo é apresentar concepções de velhice construídas no conto, à luz de aforismos do velho Riobaldo, narrador de suas passadas experiências de vida e amor. Considerando as dimensões simbólicas do texto literário, verificamos o modo pelo qual Rosa ressignifica a representação do velho – parte dos “seres de exceção” que povoam sua prosa, conforme Abelha (2000). No conto, Joaquim Noberto, também narrador em primeira pessoa, acolhe em sua fazenda um jovem casal fugitivo, cujo casamento se realizaria contrariando a família da moça. Enquanto preparam a fazenda para receber os jovens, Joaquim Noberto e Sa-Maria Andreza, casal de velhos, vivenciam a redescoberta amorosa que justifica o plural no título do conto. A velhice, inicialmente identificada ao marasmo da fazenda, passa a ser vista em suas potências, por conta da via amorosa que conduz o fluxo ascensional do conto em direção à completude erótico-cósmica, instâncias harmonizadas por Rosa, de acordo com Nunes (1994). Enquanto Diadorim fora “neblina” para Riobaldo, Joaquim Noberto e Sa-Maria Andreza entreolham-se com “os olhos desnublados”, cúmplices da sabedoria desenvolvida ao longo da idade. A velhice constitui-se, assim, não como o ponto final da vida, mas estágio de (re)descobrimentos em plena travessia da existência.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. “Luas-de-mel”. Grande Sertão: Veredas. Velhice. Amor.

 

 

 

Joelma Rezende Xavier

Instituição:   Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho:  Corpo, dança e narrativa em “Corpo de Baile”

Resumo: A partir da leitura de Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, pretendo discutir possibilidades de relação entre literatura e dança,  configuradas na imagem de um corpo de baile e nos prováveis desdobramentos estéticos dinamizadores da linguagem no texto rosiano. Para isso, proporei uma breve abordagem sobre história e constituição de corpo de baile em dança (BOURCIER, 2001) e algumas interpretações para elementos de corpo de baile, especialmente nas novelas  Campo Geral, Uma estória de amor, A estória de Lélio e Lina e Buriti. A ideia de um corpo de baile na narrativa rosiana não pode ser explicada apenas por um conjunto de fatores correlacionados à dança/ à linguagem da dança, mas é interessante observar que, dado o contexto em que essas sete novelas foram publicadas, ou seja, meados do século XX, considerar diferentes formas de expressão da linguagem no texto rosiano, destacando-se aí conexões entre literatura e dança, é uma forma de explorar as potências multifacetadas do humano, da cultura, que não se circunscrevem a uma única geografia, a um único povo ou a uma única área do conhecimento. A partir do exercício de análise comparativa, especialmente no campo teórico da Teoria da Literatura/Literatura Comparada e da História da Dança, pretendo explorar uma conexão entre esses universos interartes.

 

Palavras-chave:  Corpo de Baile.  Dança. Literatura. Linguagem.

 

 

 

Joelma Rezende Xavier

Instituição:  Centro Federal de Educação Tecnógica – CEFET/MG

Título do Trabalho:  Percepções do caminho: um olhar sobre a travessia literária e socioambiental realizada na 3ª edição do projeto O Caminho do sertão/2016.

 

Resumo do trabalho: A experiência de um contato no sertão de Rosa é uma grande oportunidade de se poder identificar parte das paisagens vivas em sua escritura e, sobretudo, uma oportunidade para se perceber o sertão contemporâneo em sua riqueza e em suas peculiaridades. No trajeto do distrito de Sagarana  ao Parque Nacional  Grande Sertão: Veredas, na Chapada Gaúcha, muitas são as vozes que traçam as memórias e a realidade local. Muitos são os casos de um Brasil rural, nem sempre prestigiado na efetivação de políticas públicas. Muitas são as cores que tecem as narrativas daqueles que conhecem a terra e dela sobrevivem. Muitas são as paisagens que se desenham nos troncos retorcidos do cerrado, na abundância dos pequizeiros, nos impactos das ações humanas. Paisagens que se tracejam nos remansos de veredas, na potência dos buritizais. Paisagens, histórias, memórias, pessoas, encantos. Neste relato, proponho uma pequena partilha dos universos sensíveis vivenciados durante a 3ª edição do projeto O caminho do sertão, realizada no período de 02 a 10 de julho de 2016.

Palavras-chave: Literatura. Guimarães Rosa. Caminhante.

 

 

Juan Filipe Stacul

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: A (des)construção da masculinidade hegemônica em Grande Sertão: Veredas
Resumo:  O presente trabalho traça um perfil da subjetividade masculina construída por Diadorim, em  Grande Sertão: Veredas, a partir de uma análise da relação entre masculinidade e homossociabilidade  presente na obra em questão. O conceito de homossociabilidade é aqui apropriado da obra de Eve K. Sedgwick, em que designa os laços de cumplicidade e companheirismo comungados por determinados grupos de homens. Trabalhamos com a hipótese de que os laços de homossociabilidade são essenciais para os processos de subjetivação de Diadorim enquanto homem e para a própria construção do que se concebe como masculinidade naquele grupo no qual o personagem se insere. Para a análise ora proposta, são colocadas em perspectiva as divagações de Riobaldo, sob a luz da teoria da enunciação, proposta por Benveniste. A partir desse processo metodológico, será possível verificar as vozes que entram em diálogo nas cenas enunciativas, corroborando e, ao mesmo tempo, subvertendo determinado conceito de masculinidade.

Palavras-chave: Gênero. Masculinidade. Homossociabilidade. Enunciação. Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.
Júnia Cleize Gomes Pereira

Instituição:  Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES/bolsista Capes

Título do Trabalho: Decifrando enigmas: o medo e a coragem em GS:V

Resumo: Esta pesquisa, que integra o projeto “Enciclopédia do grande sertão da Universidade Estadual de Montes Claros”, tem como objetivo apresentar de que modo o medo e a coragem estão dispostos em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, suas influências nas ações dos personagens e no desenrolar da trama. Ao fiar seu passado, Riobaldo  tem o intuito de decifrar as coisas que são importantes (ROSA, 2001, p. 116) e entender do medo e da coragem, sentimentos ambivalentes que coexistem e que aparecem na narrativa com frequência, atravessando o sertão e a vida dos que o habitam: a palavra medo aparece aproximadamente 192 vezes, sendo caracterizada e personificada;  já a palavra coragem, 86 vezes, estando sempre relacionada ao coração. Para concretizar nossa pesquisa, adotamos como metodologia a realização de leituras críticas acerca de tal temática, análises de conceitos e de passagens de Grande Sertão: Veredas em que fica visível a vertente pesquisada. Desejamos, com este estudo, além de contribuir para a fortuna crítica de Guimarães Rosa, encorajar leitores a atravessarem o sertão rosiano  e a entenderem do medo e da coragem, sentimentos que modificam os seres e os acompanham ao longo da vida, pois, diante dos perigos do viver, sempre carece de ter coragem (ROSA, 2001, p. 122).

Palavras-chave:  Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. Medo. Coragem.

 

 

Leonardo Antonio da Costa Neto

Instituição: Secretaria de Educação de Contagem

Título do Trabalho: Identidade e variação linguística em G. Rosa

 

Resumo: Acreditando que a leitura reconstrói e atualiza o texto literário, apresentamos o conto Famigerado, do livro Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, aos estudantes do 8º e 9º ano de uma unidade de ensino da rede municipal de Contagem. Nesse trabalho, nosso principal objetivo foi verificar de quais estratégias os mesmos lançaram mão no que concerne à percepção da língua em seu uso erudito e popular, a partir do diálogo entre o narrador e o jagunço à procura de uma significação para o termo famigerado. Se é pelo discurso que percebemos a posição que o falante presume ocupar ou ocupa no mundo, bem como as relações de poder que por ele se estabelecem, é fundamental compreender a variação linguística,  o regionalismo e a própria mineiridade  presentes na obra rosiana, sempre atual na medida em que renovada no contato com os leitores. Assim, nossa reflexão amparou-se não apenas na estética da recepção e seus contributos, mas, igualmente na linguística e nos estudos culturais, haja vista, compreendermos a língua e suas variadas manifestações imbricadas com as questões identitárias.

Palavras-chave: Estratégias de leitura. Variação linguística e identidade.

 

 

Lilian Karla Rocha

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros- UNIMONTES

Título do Trabalho: O ethos discursivo e sua relação com o autor modelo em Campo Geral, de Guimarães  Rosa

Resumo:  O presente trabalho visa relacionar o ethos discursivo do narrador e qual relação se estabelece com o Autor-Modelo em Campo Geral, de Guimarães Rosa. Durante a narrativa,  são  notáveis algumas junções de vozes e uma relação de complementação entre o narrador e a personagem Miguilim. A concepção teórica de ethos pode-se definir como uma construção de identidade narrativa, ou seja, cria-se uma maneira de narrar que, em segundo plano,  o enunciador gere uma experiência sensível dentro do discurso, de modo a mobilizar a afetividade do destinatário. Como base teórica, utilizamos o artigo “A propósito do ethos”, de Dominique Maingueneau. A respeito do autor-modelo, valemo-nos de Umberto Eco em Os limites da interpretação. A história do menino de oito anos é rodeada de maus tratos do pai, empecilhos do sertão, doenças e a morte do irmão Dito, seu sábio e fiel amigo. Essa apreciação permite observar que a personagem Miguilim encontra apoio psicológico nesse narrador que se posiciona ao seu lado quando,  graficamente,  se enuncia como a gente. Sendo assim, forma-se uma unidade afetiva em alguns momentos da narrativa entre narrador e personagem, demonstrando como o narrador se mostra entendedor do mundo infantil, pois ao longo da narrativa, em nenhum momento a voz una deixa de ser infantil. Por fim, a personagem e o narrador caminham juntos, crescem juntos, sofrem e se descobrem juntos, deixando evidente o ethos discursivo do narrador e permitindo analogias com o autor-modelo.

Palavras-chave: Ethos discursivo.  Autor-modelo. Mundo infantil. Narrador.

 

Livia de Sá Baião

Instituição: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Título do Trabalho:   Dois Joãos, dois sertões

 

Resumo:  O presente trabalho tem como objetivo investigar em que medida os sertões de João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto se afastam ou se aproximam.  Em 1956 Guimarães Rosa publica Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile e, no mesmo ano, João Cabral de Melo Neto publica Morte e Vida  Severina.  Essas três obras retratam sertões fisicamente distintos: Rosa retrata o sertão mineiro dominado pelos campos   gerais   com   boas   pastagens   e   veredas,   enquanto   Cabral   fala   do  sertão pernambucano,  seco e árido, onde o gado não pasta e onde se morre um pouco a cada dia.  Mas em que medida eles falam do mesmo espaço metafórico ou carregam as mesmas memórias do espaço?  O sertão de Rosa está em toda parte, está em toda a sua obra.  É um sertão subjetivo e movente,  ao mesmo tempo interior e exterior. Na voz de Riobaldo, o sertão é onde os pastos carecem de fechos, é do tamanho do mundo e também está dentro da gente. O sertão é onde sua história começa e nunca acaba, o infinito que vem após o ponto final. Já o sertão de João Cabral está restrito a  poucas páginas  de  sua  grande  obra.  Ele aparece pela primeira vez em O Rio (1953) e, depois, em Morte e Vida Severina, surge  como  o  lugar  de  onde  Severino  quer  escapar.  Mais tarde retorna com grande intensidade em Educação pela Pedra (1966). Para Cabral, o sertão é mais do que um lugar, é um estilo seco e cortante assim como a sua paisagem. É um vazio que anuncia a morte.

 

Palavras-chave:  Sertão. 1956.  Guimarães Rosa. João Cabral.  Morte e Vida Severina, Grande Sertão: Veredas.

 

 

Luciana Genevan da Silva Dias Ferreira

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: Aspectos da modernidade em Tutaméia

Resumo: Este estudo tem por objetivo estabelecer reflexões relativas às contradições da modernidade observadas no prefácio Aletria e hermenêutica e no conto Antiperipléia, ambos (prefácio e conto) contidos na obra Tutaméia (Terceiras Estórias), de João Guimarães Rosa. O embasamento teórico do trabalho pauta-se, principalmente, nos capítulos introdutórios das seguintes obras: Tudo que é sólido desmancha no ar;  A aventura da modernidade, de Marshall Berman, 1986; Os cinco paradoxos da modernidade, de Antoine Compagnon, 1996; Modernidade e Modernismo no Brasil, de Annateresa Fabris, 2010. A pesquisa desenvolvida em torno do objeto definido, a obra Tutaméia (Terceiras Estórias), de João Guimarães Rosa, é bibliográfica e exploratória com registro, análise, classificação e interpretação dos dados coletados. Com a indução, analisa-se a literatura tanto na área geral como específica dos temas abordados, busca-se também uma aproximação mais seleta do assunto. Verificou-se a complexidade de leituras possíveis sobre a ficção de Rosa, uma obra moderna que apresenta toda a inovação e originalidade, além de nuances da tradição mineira.

Palavras-chave: Modernidade. Aletria e hermenêutica. Antiperipléia. Guimarães Rosa.

 

 

 

Luciene Pereira

Título do Trabalho: Poética da cordialidade em João Guimarães Rosa

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo: Pretende-se com este artigo verificar até que ponto a escrita rosiana contribui para repensar o conceito de cordialidade desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. À luz de Otávio Ianni no artigo “Tipos e mitos do pensamento brasileiro”, Kathrin Rosenfield em Desenveredando Rosa, Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: um biografia,  concebe-se João Guimarães Rosa como um intérprete do Brasil capaz de, no nível da fabulação, recolocar questões de grande relevância sociológica discutidas por Holanda, como se pode ver em “Famigerado” presente em Primeiras Estórias. Cotejou-se a referida narrativa com algumas entradas da caderneta de escritos do autor  mineiro intitulada “Relações com os outros”. Pretendeu-se demonstrar que a narrativa rosiana pode contribuir para refletir, levando-nos a uma possível resposta, sobre a questão subjacente à leitura de Raízes do Brasil, qual seja: como passar da cordialidade à civilidade? Argumenta-se que essa resposta contribui para pôr em perspectiva a ambivalência sobre a qual Holanda concebeu o conceito de homem cordial, deixando claro que, longe de pressupor bondade e hospitalidade originais, o homem cordial se caracteriza como aquele dominado por toda sorte de paixões, aqui entendidas no sentido que lhe atribuiu Aristóteles no segundo livro da Retórica. Na análise do corpus, concluiu-se que os personagens de “Famigerado” apresentam características que tangem à concepção de homem cordial desenvolvida por Holanda, quais sejam: i) a resistência às normas sociais; ii) incapacidade em submeterem-se a padrões externos de conduta; iii) incompatibilidade com a noção de estado e com o domínio de disposições universais e impessoais; iv) impossibilidade de deslocar o centro de decisões de contato pessoal para instâncias públicas.

Palavras-chave: Narrativas rosianas.  Cordialidade. Interpretação do Brasil. Fabulação. Representações. Paixões.

 

 

Marcelo Rocha Brugger

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: O Recado do Verbum

Resumo: Pretendo apontar, no conto Partida do Audaz Navegante, na obra Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, como o autor, ao criar palavras e expressões, infere a morfologia e,  por vezes, a sintaxe latina no seu texto, apresentando usos possíveis mas não estabelecidos na Língua Portuguesa. Sabe-se que Guimarães Rosa, ao valer-se do neologismo, tanto pretende apresentar o vocabulário específico do sertão, quanto universalizá-lo, o que justifica o uso da etimologia e sintaxe de línguas clássicas em seus contos.  A separação entre o local e universal, em Rosa, é tênue e delicada, contudo não impossibilita a análise. Será avaliado de que forma esse processo auxilia a composição do universo apresentado pelo autor, considerando, assim, a expressividade das formas analisadas. Para a análise, será utilizado, como suporte, o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, bem como a observância da não dicionarização dos vocábulos e expressões analisados, à época de Guimarães Rosa.

Palavras-chave: Morfologia latina. Sintaxe latina.  Guimarães Rosa. Partida do Audaz Navegante.
Maria Coelho Araripe de Paula Gomes

Instituição:  Colégio de Aplicação da UFRJ

Título do Trabalho: Da margem aos cimos: Miguilim, o menino-rosa

Resumo: O interesse em pesquisar a questão do protagonismo da infância como veiculador de discursos a priori não infantis parte de indagações teóricas acerca das especificidades expressivas da Literatura infantil e juvenil, especialmente a presença da protagonista criança. Levantando hipóteses sobre a sua necessidade em obras voltadas para jovens leitores, chegou-se a um desdobramento deste foco: que sentidos são gerados quando um autor faz da criança porta-voz de sua mundividência? Em se tratando de uma obra de tamanha complexidade, e não sendo especificamente direcionada ao público jovem, salta aos olhos a importância das personagens crianças nas narrativas rosianas. Sejam elas centrais ou figuras passantes, a obra de Rosa está impregnada de infância. E do questionamento inicial chegamos à pergunta central deste trabalho: que sentidos a infância elabora na literatura de Guimarães Rosa? Partindo da ideia da infância que extrapola a mera representação nesta ou naquela personagem, mas interpretando-a como símbolo, o que se propõe é traçar o percurso existencial desta infância protagonista, defendendo-a como potência vital para que o homem se coloque em estado de viagem. Entende-se que é através das crianças de Rosa, principalmente, que se instaura o olhar inaugural sobre as coisas; o olhar marginal que se torna central na elaboração da experiência humana, refundada pela imaginação. Assim, com um corpus teórico que abrange autores como Walter Benjamin, Benedito Nunes, Henriqueta Lisboa, Bachelard, Ítalo Calvino, e que toma a própria obra do Rosa como arcabouço teórico, este trabalho se debruçará sobre “Campo Geral´” (1956), compreendendo Miguilim como símbolo da infância rosiana, cuja potência reinventiva reverbera de diferentes maneiras nos demais meninos e meninas de Primeiras Estórias, reforçando esta presença protagonista do olhar da infância revelador, na literatura rosiana, da condição movente do homem.

Palavras-chave:  Infância. Guimarães Rosa. Gênese. Viagem. Narrativa

 

 

Maria Perla Araújo Morais

Instituição: Universidade Federal do Tocantins

Título do Trabalho: A justiça em “A hora e a vez de Augusto Matraga”

 

Resumo:  O conto “A hora e a vez de Augusto Matraga” é descrito pelo próprio Guimarães Rosa como história-chave de Sagarana. Essa centralidade do conto dentro de Sagarana repercute pela crítica,  uma vez que vários estudos já se dedicaram à análise da história de Augusto Matraga. Nesse sentido, destacamos os textos de Walnice Nogueira Galvão (1978) e Antonio Candido (1966). Buscaremos retomar o conto, focando em uma temática muito importante para entender a obra de Rosa: o sistema de justiça presente no sertão. O conto mostra o percurso de um protagonista que vai de uma vida de desmandos a uma vida altruística. No período caracterizado pelo mandonismo, Augusto Esteves, também Nhô Augusto, tem filiação patriarcal, comanda jagunços e institui a própria regra. Depois de quase morrer, o personagem apresenta uma mudança, torna-se bastante apegado à religião e passa a servir aos outros, instituindo outra regra: procurar sua hora e sua vez, como um padre lhe aconselhara. A hora e a vez de Matraga fará parte de uma leitura subjetiva do que é certo e errado, direcionado e chancelado pelo seu entendimento da religião. Ficará claro nessa posse do pensamento religioso a autonomia do sujeito, por isso o texto não se tornará uma alegoria cristã. As forças resistentes da religião, por um lado, e o mandonismo local, por outro, serão centrais para observarmos como se opera a violência e justiça em um lugar onde o Estado enquanto um sistema regulativo, normativo e jurídico está ausente. Vemos, ao invés disso, bases mandonistas ou religiosas que irão compor ou servirão de substrato para organização desse Estado moderno brasileiro. O personagem, então, aponta para um sertão que se articula por leis muito subjetivas, quer seja mandonistas, quer seja altruísticas como comprova o movimento do personagem principal. Em todas as etapas, as normas de domínio ou feitura da violência estão expostas a apropriações individuais.

 

Palavras-chave:  Justiça. Violência.  Estado Moderno.  Religião. Guimarães Rosa.

 

 

 

Mariana Lins e Chaves

Teresinha Gema Lins Brandão Chaves

 

Instituição: Instituto Israelita de Responsabilidade Social Albert Einstein/                                     Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

Título do Trabalho: “O rumo nenhum do sentir” em Campo Geral

 

Resumo:  Um dos grandes problemas contemporâneos, no campo da medicina, e que tem levantado discussões a respeito de sua aplicabilidade, é o excessivo uso de aparelhagem e tecnologias, em detrimento do tratamento humanizado, especialmente nos casos de pacientes terminais. Em seu discurso de orador da Faculdade de Medicina de Minas Gerais, em 1930, Guimarães Rosa já deixara em aberto, vários pontos de reflexão, com relação à atuação médica, os quais permanecem até hoje sendo objeto de controvérsia. O “apostolado médico como um mito”, a possibilidade do “desaparecer gradual das coisas belas juradas […] e soterradas logo depois, na argamassa pesada das seriedades da vida”, o “exemplar médico comercializado”, a “aperfeiçoadíssima machina mercantil de diagnósticos” e outros conteúdos – que provavelmente incomodavam o jovem escritor e médico – foram destacados, de forma sutil. Neste trabalho, propomos uma análise das representações da família e do “personagem terminal” Dito, no conto  “Campo Geral”  tendo como contraponto as intervenções mecânicas, ausência da família e isolamento impostos aos pacientes terminais em UTIs.

Palavras-chave:  Campo Geral. Literatura. Medicina.

 

 

Marina Bonatto Malka

Instituição:  Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Título do Trabalho: A infidelidade no olhar da personagem Silivana

 

Resumo:  Este trabalho consiste na análise da personagem Silivana do conto Duelo, de Sagarana (1946). A personagem é esposa de Turíbio Todo, um homem “papudo, vagabundo, vingativo e mau”, e que se relaciona ao mesmo tempo com o ex-militar e mais jovem Cassiano Gomes, sendo flagrados pelo marido, desencadeando um longo duelo. A descrição do olhar de Silivana assemelha-se ao olhar de Capitu, personagem machadiana de Dom Casmurro (1889) que  supostamente é infiel ao seu marido. Ou seja, os “grandes olhos bonitos, de cabra tonta” de Silivana assemelham-se aos olhos de “cigana oblíqua e dissimulada” e de “ressaca” de Capitu, gerando uma metáfora da infidelidade no olhar marcante da amada. Simultaneamente, existe uma lealdade por parte de Silivana com o homem  que ela se fixa no momento, podendo ser Cassiano ou Turíbio. Ela é a única personagem feminina do conto e, mesmo o narrador de terceira pessoa concedendo voz a ela poucas vezes, Silivana é o elemento chave no conto, motivadora do duelo/perseguição incansável de suas duas paixões.

Palavras-chave:  Guimarães Rosa. Sagarana.  Duelo. Olhar. Mulher.

NÁDIA GARCIA MENDES

Instituição:   Universidade Federal do Rio de Janeiro

Título do Trabalho:  Os Contadores de Estórias de “Uma Estória de Amor”

 

Resumo: O Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, reúne personagens anunciadoras de uma forma de sabedoria que se apresenta através da palavra poética. Contadores de estórias, músicos, poetas, loucos, crianças, anciãos são alguns dos exemplos de “personagentes” encantados, que trazem consigo um conhecimento que forja linguagem e ser originais. Primeira das três novelas consideradas como “Parábases” pelo autor, “Uma Estória de Amor”  desempenha o papel de parábase inaugural, indicando já a importância da arte de contar estórias no princípio de composição do livro. As fabulações dos contadores Joana Xaviel e Camilo não se configuram como simples entretenimento, mas como expressões de um saber que atualiza a potencialidade criativa do homem.
Tendo em vista as considerações acima,  apresentamos como proposta de comunicação uma leitura da novela “Uma estória de amor”, buscando compreender o saber revelado na atuação de Joana Xaviel e Camilo, sobretudo, no que diz respeito ao personagem Manuelzão, o qual está intimamente associado às estórias encenadas pelos dois contadores. Assim, a partir da narrativa interpretada, pretendemos entender a relação entre conhecimento e palavra poética na mundividência  rosiana.

 

Palavras-chave:  Palavra Poética. Estórias. Sabedoria Poética.

 

 

 

Natalino da Silva de Oliveira

Instituição: Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF SUDESTE MG)

Título do Trabalho: O narrador enganoso em Grande Sertão Veredas e “Meu tio o Iauaretê”

Resumo:  Em uma série de narrativas de Guimarães Rosa, há um motivo que se repete e se configura enquanto lugar-comum: um diálogo (monólogo). Geralmente em suas narrativas, o narrador esboça um diálogo incompleto e que não se conclui, pois o interlocutor  não recebe a oportunidade de fala, de resposta. O que torna o texto mais interessante é o fato do narrador (interlocutor dominante) se posicionar em um lugar de enunciação de menor prestígio que outro. É buscando identificar as armadilhas deste narrador (interlocutor)  enganoso que este trabalho visa analisar o texto de Grande Sertão Veredas e de “Meu tio o Iauaretê”. Além de haver o processo de domínio total da enunciação por parte do narrador-personagem tanto no conto quanto no romance, também ficam visíveis as artimanhas utilizadas pela voz narrativa na sedução do leitor. Observa-se que se dá um processo de convencimento e até mesmo de encantamento utilizado pelo narrador nestes dois textos, na tentativa de influenciar as conclusões e percepções do leitor. Aliás, cabe mesmo adiantar a questão de quem seria este interlocutor sem voz na narrativa; não seria este o leitor do texto?  É seguindo as trilhas e descaminhos do narrador e tentando analisar como se dá a estruturação da voz na narrativa rosiana que este artigo se constrói.

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Estética da dissimulação. Literatura Brasileira. Narrador.

 

Nathalia Thomazella

Instituição:  Universidade Federal de Minas Gerais /FAPEMIG

Título do Trabalho:  Eros em Partida do audaz navegante de Guimarães R.

 

 

Resumo:  A partir da imagem atual que temos de Eros, também conhecido como Cupido ou Amor desde os romanos, propomos, nesse trabalho, traçar um paralelo entre essa figura de Eros e a personagem Brejeirinha do conto “A Partida do audaz navegante”,  de João Guimarães Rosa, a qual conta (e inventa) a história de “O Audaz Navegante”. Para cumprir com esse objetivo, primeiramente faremos um breve panorama literário que descreve as características  que compõem essa figura e suas variações, até ser caracterizada e representada da forma como a concebemos atualmente: um menino belo, alado, que carrega sempre o arco e é criador de elos. Por conseguinte, relacionaremos e faremos uma comparação dessas características com as de Brejeirinha, a menina que queria saber o amor e que às vezes, formava muitas artes. Formaremos esse panorama literário com o suporte de algumas obras que descrevem ou remetem a figura do Eros como, por exemplo, Os Argonautas de Apolônio de Rodes e O burro de Ouro de Apuleio.

 

Palavras-chave: Imagem. Eros. Guimarães Rosa. Brejeirinha.

 

 

 

 

Osmar Pereira Oliva

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES)

Título do Trabalho: Veredas em sombra – Riobaldo e a violência sexual

Resumo:  Riobaldo amou um homem. Esta é a certeza inequívoca que temos ao concluir a leitura de Grande Sertão: Veredas. E é essa certeza que atormenta o narrador-personagem protagonista criado por Guimarães Rosa, numa espécie de epopeia sertaneja. No início do século XX, transitando por um espaço árido, patriarcal e violento, Riobaldo se vê impelido a sufocar seu amor por Reinaldo/Diadorim ou, pelo menos, disfarçá-lo em amor heterossexual, apresentando ao leitor, no final da narrativa, a certidão de nascimento  que atestava o sexo feminino do ser por quem se apaixonou perdidamente. Todo o conflito romanesco é desencadeado por essa atração inevitável, iniciada na infância, à margem do rio São Francisco, e que perturbará, terrivelmente, Riobaldo. Um homem não ama outro homem. Parece irrelevante esse tormento, à primeira vista, e é por esse motivo que Riobaldo ingressa no bando de jagunços e assume uma identidade masculina guerreira, virilmente forçada, utilizando-se do discurso em primeira pessoa, por meio do qual conta e reconta suas histórias de valentia e de investidas sexuais, a fim de tentar convencer-se,  a si mesmo, e ao leitor,  de que sempre fora homem “macho”, e não um desviado sexualmente. O leitor mais atento, no entanto, encontra,  nesses relatos tantos, nas veredas ensombradas da grande narrativa, que diversos e intrigantes temas abriga, confissões de estupros, de abusos sexuais e até mesmo de desejos pedofílicos de Riobaldo. Esta comunicação pretende, então, trazer à discussão a violência sexual contra mulheres praticadas por Riobaldo em Grande Sertão: Veredas.

Palavras-chave:  Grande Sertão: Veredas.  Violência sexual. Mulheres. Masculinidade.

 

 

Patrícia Goulart Tondineli

Instituição: Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)

Título do Trabalho: Mitotopônimos em Grande Sertão: Veredas

Resumo: Esta pesquisa, que integra o projeto “Enciclopédia do Grande Sertão”, discorre sobre os topônimos no contexto de Grande Sertão: Veredas, mais especificamente, os mitotopônimos, nomes de lugares que recordam entidades ou objetos mitológicos / folclóricos, além de nomes referentes ao espiritismo (DICK, 1990). Concebemos nomes como estados de crenças, “eventos mentais conscientes” (SEARLE, 1995, p. 64); portanto, representação e apresentação. É exatamente nesse ponto que a concepção de mito em relação à toponímia nos é relevando, sendo que um mito mostra elementos que se ligam entre si, pois ele não se apresenta de forma isolada do contexto em que é narrado, e sempre se combina com a história, a sociedade e o mundo. Com significado diverso, mito é narrativa, palavra, enunciado humano dentro de uma perspectiva de análise da realidade. Como já apresentamos em trabalhos anteriores, há coerência entre o sentido morfo-etimológico do topônimo e as características a eles inerentes expostas nas páginas de Grande Sertão: Veredas, seja pela caracterização de personagens, seja pela caracterização da paisagem, seja pela descrição e/ou narrativa de algum acontecimento. A toponímia, assim, serve e se ajusta às intenções simbólicas na invenção criativa de Guimarães Rosa.

Palavras-chave: Grande Sertão: Veredas. Mito. Toponímia.

 

 

Pedro Cornelio Vieira de castro

Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro

Título do Trabalho: O diálogo do sertão mitopoético

Resumo: Ao estudarmos as obras de Guimarães Rosa, nos deparamos com um universo de significados e significantes  muito vasto, talvez infinito. O uso da língua e das imagens faz de seu sertão um espaço inédito na Literatura, embora seja confundido muitas vezes com uma obra de caráter regionalista. Este trabalho pretende mostrar que o sertão de Grande Sertão: Veredas  não é um simples cenário geográfico ou histórico,  mas é toda uma natureza  mitopoética. Com alto teor imagético, o romance carrega complexas questões envolvendo o ser humano. Essas questões se inserem a partir da narração de Riobaldo, sempre dirigida a um homem muito culto. Entretanto, esse homem jamais intervém na narrativa, levando a interpretação de que o diálogo travado não é com ele, mas com um tipo específico de leitor. A partir de reflexões explícitas tiradas do livro, faz-se necessário entender quem é esse leitor a quem Rosa se dirige e de que modo acontece esse diálogo. Para desvendar essa questão, utilizamos textos teóricos de Manoel Antonio de Castro e do pré-socrático Heráclito de Éfeso, que nos remetem à origem da palavra diálogo e sua aproximação com a palavra lógos. Essa aproximação, por sua vez, desvela uma visão antiga de natureza, escondida no termo physis. É essa natureza encontrada em  Grande Sertão: Veredas. Para elucidar o caráter mitopoético do sertão rosiano,  recorremos a Antonio Candido, Eudoro de Sousa e Ronaldes de Melo e Souza, bem como entrevista do próprio Guimarães Rosa ao seu correspondente alemão Gunther Lorenz.

Palavras chave: Sertão. Mitopoético. Diálogo. Physis.

 

 

Rafael Guimarães Tavares da Silva

Instituição:   Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Do sertão de Homero ao mar de Rosa

 

Resumo :  O valor épico de Grande Sertão: Veredas é uma constatação comum entre os estudiosos da obra de Guimarães Rosa. Partindo da hipótese avançada pela prof.ª Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, no curso do 2.º semestre de 2016, da pós-graduação da Faculdade de Letras da UFMG, cujo título alvorece de modo bastante sonoro (“As auroras de Rosa, apropriações homéricas”), pretendo experimentar algumas ideias a fim de esboçar possíveis respostas às seguintes questões: de que forma as ditas apropriações homéricas ajudam a compreender o valor épico da obra de Rosa? Até que ponto é possível falar de apropriações para a escrita rosiana? Quais os interesses de um autor brasileiro em se valer de tais estratégias de composição numa obra contemporânea? Para isso, retomarei alguns estudos sobre poesia épica oral, principalmente sobre os poemas homéricos, bem como sobre a recepção dos clássicos helênicos nas obras de Guimarães Rosa, como o estudo de Ana Luiza Martins Costa (1997).

 

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Homero. Grande Sertão: Veredas. Recepção.Clássicas.

 

 

Raquel Beatriz Junqueira Guimarães

Instituição:   Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho:  Miguilim: olhar e dor

Resumo:  A literatura brasileira oferece-nos um expressivo material voltado para a representação do mundo infantil.  Miguilim, de Guimarães Rosa, é um desses casos em que o modo da criança ver o mundo e o sofrimento advindo desse ponto de vista infantil oferece ao leitor um mundo no qual estão presentes os conflitos dos tempos da infância. Em sua relação com os adultos, o menino sofre com suas dificuldades para enxergar e compreender o mundo complicado que tem diante de si: os valores do pai, o sofrimento da mãe, a presença inquietante de Tio Terez, a doença e morte do irmão. Nesta comunicação,  pretende-se refletir sobre como o mundo infantil aparece nesta novela de Guimarães Rosa e discutir como se configuram a dor e o olhar de Miguilim em seu contato com o mundo adulto.

Palavras-chave:  Miguilim. Olhar. Solidão.

 

 

Rita Gabrielli Pereira

Instituição:  Pontifícia Universidade Católica de  Minas Gerais

Título do Trabalho:  Corpo e linguagem em “Meu tio o Iauaretê”

Resumo:  Este trabalho intenta refletir sobre a relação entre corpo e linguagem a partir do modo como ela é encenada em “Meu tio o iauaretê”, de Guimarães Rosa. Nesse conto, o leitor se depara com um narrador-escritor que, encenando o discurso oscilante do onceiro-jaguar,  relata como o matou para salvar-se de ser devorado. Trata-se, portanto, de uma narrativa sobre a aniquilação de um corpo que, como último recurso à sobrevivência, volta-se à natureza animalesca, diante da incidência da linguagem impossível de realizar-se satisfatoriamente na língua do outro. Nesse encontro fatal entre os dois personagens, o limite do discurso marca profundamente também a experiência do narrador,  de forma que não somente a morte, mas também o relato, como exercício de dizer o impossível, é apresentado como uma resposta possível ao encontro com esse limite. O texto rosiano em questão tem a forma de um diálogo virtual, já que o interlocutor é pressuposto a partir da sinalização de sua presença na organização discursiva do locutor.  Tal característica, denominada por Antonio Candido (conforme Morais, 2006) como “operação de alta estética” é encontrada também em Grande Sertão: Veredas. Embora “Meu tio o Iauaretê” tenha sido o primeiro texto em que Rosa experimentou tal operação, ele só foi publicado postumamente, em Estas histórias. A “operação de alta estética”, tal como ela é utilizada no conto de que se fala, é crucial para que se evidencie o papel (transgressivo) da literatura no lidar-com o(s) limite(s) da experiência humana, conforme será mostrado nesse trabalho. Como recursos a esta reflexão, serão agenciadas a concepção de linguagem de Benveniste (1989a; 1989b; 1976a; 1976b), a noção de ficção de Iser (2002) e a leitura do conto de Rosa feita por Wey (2005).

Palavras-chave:  Linguagem. Discurso. Corpo. Realidade. Ficção.

 

 

Robson Caetano dos Santos

Instituição:  PUC Minas

Título do Trabalho:  O delicado jogo de espelhos no episódio da Guararavacã do Guaicuí em  Grande Sertão: Veredas: prenúncio, retomada e reflexo duplo segundo o modelo figura presente na narrativa bíblica.

 

Resumo:  Na abertura do Seminário Internacional Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile 50 anos, em 2006, o crítico Antônio Candido sinalizou para a plateia acerca de uma quase confissão, que lhe fizera Guimarães Rosa, sobre haver um importante enigma a ser desvendado no episódio da Guararavacã do Guaicuí. Essa narrativa é localizada praticamente ao meio do romance e lança luzes sobre a narrativa que o antecede e, prospectivamente para o que se lhe segue, segundo Morais (2007). Destarte, o presente estudo vislumbra a possibilidade de releitura desse episódio segundo a técnica de espelhamento da bíblia, na qual o novo e o antigo testamento se complementam em um cuidadoso e integrado sistema de repetições baseados na recorrência de fonemas, palavras, pequenas frases, temas, ações e ideias. Assim, por esse modelo, Adão, Moisés, Josué, o vinho, o pão, o sangue do cordeiro oferecido em holocausto, o sacrifício de Isaque, dentre outros exemplos, apontavam para a redenção de Cristo e a restauração de Israel. Essa técnica foi denominada por Auerbach (2011) como figura, e conceituada por Northrop Frye (2004) como tipologia. Alter Robert (2007) também afirma que a Bíblia compartilha, em grau considerável,  aplicações dessa técnica em outras narrativas literárias, aos quais leitores e escritores a reconstroem de outras formas. Não que haja verdadeiros sinônimos na forma ipsis litteris, mas toda vez que há ocorrências dessas repetições elas acontecem de uma forma nova, pois a arte (consciente ou intuitiva) faz com que sejam sempre uma afirmação nova, que intensifica, complemente,  contrasta e expande o material semântico. Esses elementos reiterados ou prenúncios são avisos vagos do que está para acontecer, ainda que não sejam enfáticos. Somando-se ainda com o amparo teórico de Davi Arrigucci Jr. (1994), que defende pontos de sutura na aparente narrativa não linear no mundo misturado de Grande Sertão: Veredas, a comunicação pretende utilizar esse pano de fundo específico para refletir sobre a forma de escritores, como Guimarães Rosa, exercitaram em sua arte composicional narrativa (consciente ou não) sobre o modelo presente na Bíblia.

 

Palavras-chave:  Guararavacã do Guaicuí. Bíblia. Técnica de espelhamento.

 

 

 

Rosa Amelia P. da Silva

Título do Trabalho: Leitura literária pelo viés dialógico:  uma experiência com a leitura de contos de João Guimarães Rosa no Vale do Urucuia

 

Resumo:  Neste relato, discorre-se acerca de uma pesquisa-ação desenvolvida na região do Vale do Urucuia, entre os anos 2011 e 2013, a fim de promover a leitura dos contos de João Guimarães Rosa na Educação Básica. O autor e a sua obra adensam os projetos sociais no território urucuiano;  contudo a recepção,  pela leitura, de seus textos é praticamente nula. Embasados na dialogia bakhtiniana, em teorias acerca da recepção do texto literário e no letramento literário, desenvolveu-se um projeto, cuja metodologia demonstra a utilização de estratégias para desenvolver habilidades de leitura do texto literário rosiano na Educação Básica, as quais podem ser aplicadas a quaisquer textos literários: as cirandas dialógicas de leitura.  Durante as “cirandas de leitura”, destaca-se o papel do professor, na posição de mediador de estratégias de leitura,  sobretudo quando elas constituem eventos dialógicos que devem ser planejados e flexibilizados considerando o público que lê e o texto a ser lido. Essa experiência é que será apresentada, em seus pormenores, neste relato.

 

Palavras-chave: Leitura. Literatura. João Guimarães Rosa. Cirandas dialógicas.

 

 

Rosana Baptista dos Santos

Instituição: Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

Título do Trabalho: Guimarães Rosa e Homero: diálogos intertextuais

Resumo: Riobaldo,  narrador de  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, esforça-se ao longo do romance para determinar a expressão grande sertão, espaço geográfico por onde o bando de jagunços combate os inimigos, e a própria viagem empreendida com o intuito de guerrear. A tradição ocidental da narrativa de viagem, que tem como enredo a busca dos limites da terra ou do universo, a configurar simbolicamente uma viagem interna do sujeito à procura de si mesmo, tem, a princípio, como modelo inicial a Odisseia, que narra a volta de Ulisses de Tróia para Ítaca. Em  Grande Sertão: Veredas,  o tema da viagem adota vários aspectos ou papéis, como a problematização da condição humana ou a busca do sujeito por sua(s) identidade(s). Tal procura se concretiza ao  fim de ambas as narrativas, a brasileira e a grega, por meio das cenas de anagnorisis, através das quais é possível (re)conhecer Diadorim e Ulisses e, por extensão, a Riobaldo  e Penélope. A viagem, na obra de Guimarães Rosa, pode, ainda, ser entendida como suporte estruturante,  intradiegético, do texto, a criar uma estrutura textual em que os planos narrativos se entrecruzam. Portanto, por meio de uma pesquisa bibliográfica e da abordagem comparativista, far-se-á uma análise do diálogo intertextual estabelecido entre o romance  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e da epopeia grega Odisseia, atribuída a Homero. A partir do conceito de intertextualidade, o objetivo principal é demonstrar como a obra rosiana recupera o tema da viagem e o transforma na composição de uma obra considerada singular por congregar motivos clássicos aos temas da sociedade (do sertão) brasileira(o).

Palavras-chave:  Grande Sertão: Veredas. Odisseia.  Intertextualidade. Viagem.

 

Rosana Baptista dos Santos

Instituição/Empresa Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e Universidade Federal de Minas Gerais

Título do Trabalho: Guimarães Rosa e os Clássicos greco-latinos

 

Resumo:  Dentre as variadas estratégias composicionais adotadas por Guimarães Rosa, destaca-se a recorrência ao diálogo intertextual. Ao considerar a intertextualidade como um exercício de crítica e de tradução, o autor abala a relação hierárquica entre os textos literários, em um ininterrupto processo de dissolução de fronteiras dos textos a que recorreu e do estabelecimento de outras, que se poderia denominar como terceiras margens.  O próprio Rosa garantiu, em carta a seu tradutor italiano, que ao compor um livro é como se estivesse elaborando uma tradução de um alto original. Dessa forma, o Sertão rosiano  (e seus personagens) teria sido composto, dentre outras características, por traços de culturas distintas e fontes míticas greco-latinas, mesmo que de forma alusiva  ou por meio de reminiscência. É possível afirmar, portanto, que a recorrência aos clássicos greco-latinos na obra rosiana ocorre por intermédio da retomada de personagens, de mitos, de elementos estrangeiros ou pela estruturação do universo diegético. Esta mesa coordenada contempla, assim, estudos com abordagens comparativistas sobre as fontes greco-latinas na obra de Guimarães Rosa.

Palavras-chave:  Guimarães Rosa. Intertextualidade.  Comparativismo.  Clássicos Greco-latinos

 

 

Samella Priscila Ferreira Almeida

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES

Título do Trabalho:  A Doença como Metáfora em Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa

Resumo:  Como descreve Susan Sontag em A Doença como Metáfora, muitas vezes a doença ultrapassa sua significação enquanto mal físico e se torna uma representação de significações  subjetivas ou sociais, a doença se torna metáfora na obra literária. Paul Ricouer afirma que a palavra metáfora pode ser compreendida como um transporte de sentido  próprio para sentido figurado, realizando-se no nível da palavra, da frase e do discurso. No nível do discurso, a metáfora age enquanto rede e forma-se pelo aparecimento repetido de determinadas figuras e imagens numa obra, que se interligam e ganham interesse simbólico em seu conjunto. A rede metafórica é uma estratégia narrativa que utiliza de suas imagens para construir significações que servem de pano de fundo ou espinha dorsal para encaminhar o texto para seu sentido mais importante. Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  foram observadas mais de 80 passagens de relatos de enfermidades diversas, desde doenças epidêmicas a dores, doenças mentais,  ferimentos, envenenamentos, entre outros. Esta pesquisa busca compreender os sentidos da rede metafórica e observar como eles se aplicam enquanto estratégia narrativa na obra rosiana,  demonstrando como o autor utiliza das doenças como recurso metafórico em rede ao longo do texto, dando apoio e servindo como chave para a compreensão de assuntos e temas mais centrais à obra.

Palavras-chave: Doença. Metáfora. Grande Sertão.

 

Sílvio Augusto de Oliveira Holanda

Instituição/Empresa Universidade Federal do Pará – UFPA /  CNPq

Título do Trabalho: Problematização da experiência narrativa no epílogo de Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Resumo: É um lugar-comum falar-se da particularidade do enredo em Grande Sertão: Veredas (1956), a ele atribuindo adjetivos como elíptico, assimétrico,  alinear,  etc. Tal aspecto já foi bastante abordado pela crítica especializada, que relacionou essa configuração do enredo a uma estética moderna (RÓNAI, 1958; ASSIS BRASIL, 1969; COUTINHO, 1991 e 2013). No afã de compreender ou de ordenar o conjunto narrativo, de que fazem parte as microistórias como as de Maria Mutema e de Jazevedão, a crítica individualizou  segmentos textuais e os caracterizou em termos de conteúdo e forma, sem se indagar como seria possível ao leitor apreender tais sequências. Com base nessa segmentação, foram propostas divisões do romance em sete blocos (BOLLE, 2000) ou sequências (ROSENFIELD, 1992 e 2008), que se organizam segundo a vida de Riobaldo  como protagonista ou aspectos temáticos, como o ser jagunço ou o assunto da “estória”. Contudo, o narrador rosiano, embora admita seu contar “errado” e “desemendado”, propicia ao leitor algumas informações, capazes de fazer com este articule os referidos blocos ou sequências textuais muito distantes e apreenda relações inesperadas entre momentos diversos da narrativa. Assim, esta comunicação, especificamente, tem por objetivo elucidar os últimos 44 parágrafos do romance rosiano, correspondentes ao sétimo bloco textual. Nele, encenam-se aspectos narrativos posteriores à morte de Diadorim, sendo marcado ainda pela presença de Otacília e pela mudança social  (herança). Busca-se demonstrar que o epílogo não se limita ao luto por Diadorim,  antes aponta para a interpelação da vida como travessia e a problematização da experiência narrativa (JAUSS, 1997).

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. Epílogo.

 

 

Sílvio Rodrigo deMoura Rocha

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Título do Trabalho: O enigma da canção em G. Rosa e Caetano Veloso

 

Resumo:  Este trabalho pretende analisar, comparativamente, a narrativa “O recado do morro”, de Guimarães Rosa, e a canção “Cajuína”, de Caetano Veloso. A proposta de análise nasce do fato de ambos formarem-se como textos que carregam, em si, outro(s) texto(s), envolvendo seus personagens e seus leitores em um jogo de decifração enigmática, provocando-os a uma busca de desconstrução do texto como processo também para a desconstrução do enigma. Desse modo, seguiremos nosso trabalho no sentido de analisar como a narrativa de Rosa e a canção de Caetano trabalham seus enigmas e, em especial, como se dá a formatação estética desses textos grávidos de organização para algo que, inicialmente, apresenta-se como caos; são textos e reflexões em busca de (des)construção por parte de todos os sujeitos envolvidos no processo de produção-leitura.

 

Palavras-chave: Guimarães Rosa. Caetano Veloso.  Narrativa.  Canção.  Cajuína.  O Recado do Morro.

 

 

 

Jacinta de Jesus de Souza

Jenifer Leal Teixeira

Talitha Aparecida Neiva

Orientadora: Nasle Cabana

Instituição: Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Belo Horizonte

Título do Trabalho:  Os neologismos do conto “A terceira margem do rio”

Resumo: A pesquisa propõe a identificação e análise morfológica dos possíveis arcaísmos, sertanismos e neologismos do conto “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa, escritor responsável pela criação de mais de 8.000 novas palavras. O objetivo geral é analisar os neologismos presentes no conto. Para confirmarmos o status de neologismo das palavras a serem analisadas, faremos uso, a título de corpus de exclusão, dos dicionários Houaiss (2009) e Aurélio (2010). Além disso, usaremos os livros O Léxico de Guimarães Rosa (MARTINS, 2008) e O Português Arcaico: fonologia, morfologia e sintaxe (MATTOS e SILVA, 2006) para verificarmos se os itens representam neologismos, arcaísmos ou regionalismo. Até o momento, foram encontradas 46 palavras, das quais 20 estão em processo de análise.
Acreditamos que descrever como uma nova palavra é criada ou como sofre uma modificação de sentido em determinado contexto é também entender um processo que facilita a comunicação e a leitura de textos  literários ou teóricos, escritos em diferentes épocas. Portanto, cremos que especificamente os neologismos, arcaísmos e regionalismos presentes neste conto contribuem para melhor entendimento da linguagem Roseana.  A principal contribuição deste trabalho repousa no fato de esta pesquisa poder vir a ser objeto de referência para estudos futuros no campo da neologia, importante recurso para a renovação e enriquecimento da Língua Portuguesa.

Palavras chave: Neologismos. Guimarães Rosa. Morfologia.

 

 

Telma Borges da Silva

Instituição: Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES/ Grupo de Pesquisa Nonada/ FAPEMIG

Título do Trabalho:  A Literatura Poliédrica de Guimarães Rosa

Palavras-chave: Literatura de Minas Gerais.  Enciclopédia. Grande Sertão: Veredas.

 

Resumo : O grupo de pesquisa interdisciplinar em literatura e afins Nonada, cadastrado no CNPq, com projetos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG, desde 2009, investiga a obra do escritor mineiro João Guimarães Rosa tendo por base o conceito de Enciclopédia, conforme pensado por Umberto Eco em “O antiporfírio”, para quem a enciclopédica é um modelo teórico (aberto) que explica uma língua natural em toda sua complexidade e contraditoriedade. “Ela nasce porque o modelo ‘forte’ do dicionário (fechado) revela-se não inadequado, mas estruturalmente insustentável” (ECO, 1989, p. 336). As atividades do grupo evidenciam as inúmeras possibilidades de interconexão com outras áreas do conhecimento, motivo pelo qual as investigações são orientadas levando em conta a filosofia, a geografia, a botânica, a mineralogia, a zoologia, a religião, a toponímia, a música, dentre outras. Neste trabalho, nosso objetivo é apresentar os resultados obtidos até o momento nas áreas da botânica (flora), da Geografia (mapa fluvial), da Música (MPB) e da Zoologia.

 Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa

Instituição/Empresa Universidade Federal de Minas Gerais/CNPq

Título do Trabalho: RioBardo: os clássicos em Grande Sertão: Veredas

 

Resumo:  Grande Sertão: Veredas é narrativa que se erige a partir de um narrador apenas, Riobaldo, que se desdobra em outros imiscuídos em pequenas histórias que compõem um todo de memórias. O nome Riobaldo é, tal qual os muitos outros em Guimarães Rosa, um nome motivado. Sobre a motivação dos nomes próprios em Rosa, muito já se falou. Ana Maria Machado em sua obra Recado do nome (2003, 3ª edição) realizou pesquisa cuidadosa;  para ela “o Nome é sempre significativo. E sempre uma forma de classificação.  O significado mais comum  e já bastante comentado entre outras muitas possibilidades para o narrador do Grande Sertão é “rio baldo”, isto é, “rio frustrado, vazio”. Ainda segundo Machado, “O Nome Riobaldo  evoca, em primeiro lugar, por sua sonoridade (…) nome inventado, com sua etimologia introduz imediatamente os aspectos de Rio e baldo (frustrado)…” Neste ponto, a autora indica que o primeiro crítico a fazer a etimologia referida, foi M. Cavalcanti Proença (Trilhas do Grande Sertão, 1958), dois anos após a publicação de Rosa. Machado acata a proposta interpretativa de Proença e acrescenta que a sua interpretação marca “as tantas mudanças de curso de um personagem que não se fixa num só caminho”. Todavia, acreditamos que há no nome a possibilidade de uma outra leitura hermenêutica bastante fecunda e vinculada à área de estudos clássicos. Isto é o que vamos propor nesta intervenção, a saber: o nome do jagunço narrador, dito de modo mais amineirado, isto é, à maneira interiorana de Minas Gerais, é dito com a pronúncia do ‘l’ de “baldo” modificado em ‘r’. O mineiro comum do interior fala Riobaldo como se escrevêssemos “Riobardo”. Ora, a palavra ‘bardo’ não tem desprezível passado. Vamos discorrer sobre isto.

Palavras-chave:  Guimarães Rosa. Odisseia.  Narrador. Medo. Composição formular.

 

Viviane Michelline Veloso Danese

Instituição:  PUC Minas

Título do Trabalho:  Sezão de amor: a ruína do espaço e das personagens

 

Resumo: Pretende-se fazer uma análise do conto Sarapalha, do livro Sagarana (1946), explorando a ruína do espaço e dos primos Argemiro e Ribeiro, infectados pela malária. Embora a ruína seja provocada pela presença da maleita, que afastou os habitantes do lugar, deixando os primos completamente isolados e sem forças para trabalhar, ela ganha mais evidência no amor de ambos os personagens por uma mesma mulher: Luísa, esposa de primo Ribeiro, que fugira com um boiadeiro tão logo a doença deu seus primeiros sinais no vau da  Sarapalha. A confissão do amor de Argemiro por Luísa se dá como forma de aliviar a consciência, mas afronta Ribeiro que se sente duplamente traído e  expulsa o primo da fazenda. O cenário de decrepitude, o réquiem da cantiga do mosquito e as sezões dos primos constituem subterfúgios para a reintegração do amor de Luísa pelos dois personagens, pois afinal se ela aparecesse, até a febre sumia. Corrobora com essa proposta a personificação da malária em uma figura feminina, sensualizada nos tremores esporádicos e na linguagem trépida que se desenrola no conto entre monólogos, diálogos e delírios provocados pela febre terçã.

Palavras-chave:  Sarapalha. Ruína. Espaço. Amor.

 

 

 

 

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